
|
ARTE E ELEVAÇÃO
(Renato Suttana)
Os autores que admirei na juventude (e alguns dos quais
continuo a admirar ainda hoje) tornaram-se autores
lendários na minha imaginação. Igualmente, quando
descobri a pintura, me espantei. A primeira vez em que
ouvi falar das grandes obras da arte visual foi há
quatro décadas, quando entrei numa banca de revistas e
comprei um fascículo da coleção Gênios da Pintura,
publicada no Brasil pela Editora Abril. A coleção era
destinada a oferecer ao público brasileiro reproduções
de quadros de pintores famosos, acompanhadas por um
pequeno ensaio biográfico no qual os autores de cada
fascículo refletiam sobre a relevância história e
artística das obras.
Foi olhando para aquelas imagens que tive um primeiro
vislumbre, ainda na pós-adolescência, do que significava
pintar realmente e da maneira como isso deveria ter
lugar na minha vida. Não lembro qual era o artista de
que o primeiro fascículo tratava. Talvez se estampassem
no papel algumas imagens da obra de um mestre do
Renascimento ou de época anterior, ou talvez se tratasse
de um dos chamados modernos. Vieram depois os outros, em
número crescente, e aos poucos fui aprendendo que a
pintura era de fato uma arte, com as suas regras, os
seus modos, os seus códigos de expressão e as suas
tradições. O termo cânone artístico, que hoje se tornou
corrente, me era desconhecido naquele tempo. No entanto
entendi logo que, no transcorrer dos eventos humanos — a
que chamamos história (e em especial aqueles que dizem
repeito à arte e a seus criadores) —, alguns autores se
destacavam por suas qualidades técnicas ou pela
capacidade que demonstravam de inovar em relação ao
passado. Sobretudo, destacavam-se pela profundidade e
alcance de suas realizações. Tornei-me assim sensível à
ideia da profundidade (ou do que chamo de profundidade),
vista como uma abertura para a vida e a arte que certas
obras podiam conter, enquanto outras não a tinham. Um
quadro de Piero della Francesca ou de Manet não era
qualquer coisa. E as pinceladas visíveis de Van Gogh
expressavam mais do que o desejo de fazer o novo e de se
desviar de seus antecessores. Essas cores em frenesi
buscavam, por assim dizer, a vida na sua inteireza, não
estando ali para enfeitar.
Admirei, pois, esse modo exacerbado de produzir arte e
considerei-o o mais alto. De minha parte, interessei-me
por experimentar também a pintura, obtendo escassos
sucessos, dados os meus conhecimentos insuficientes da
técnica. Tinha apenas um pequeno domínio do desenho e do
sombreado, adquirido nos anos anteriores, e isso não me
pareceu suficiente. Assim, a pintura aos poucos me
escapou, sumindo de meu horizonte de interesse, e foi
substituída por uma crescente preocupação com livros.
Tornei-me leitor de literatura, concentrando-me em
romances e poesia. De todo modo, a curta experiência
como pintor me deu, em primeira mão, uma noção do que
fosse confrontar a imagem pintada em tela com a vida
circundante. Algo inconscientemente, entendi que não
valeria a pena pintar se não fosse para atingir,
exercitando a arte, níveis de consciência e expressão
mais elevados, que não se podem atingir por meios
vulgares. Mesmo a filosofia ou a ciência, que já me
interessavam, me pareceram insuficientes. Jovem demais
para entender aquilo com que eu começava a lidar, eu não
percebia as dimensões reais de tala constatação.
Derivava. A arte se me abria como imensa possibilidade e
apontava tanto para a necessidade de uma compreensão
mais decisiva de mim mesmo e de um entendimento mais
sério da vida ou mais elevado — para o qual, em todo
caso, eu não estava preparado.
*
No início, não percebi os riscos
e os perigos da aventura — pois a arte não era menos que
uma aventura a ser arrostada sem garantias, tanto
podendo redundar no vazio quanto numa na desejada
elevação diante do ser. Para tais questões, num instante
precoce da vida, eu me voltei e a tudo disse sim. A
pintura dos chamados mestres — mais do que uma coleção
de objetos a ser guardada nos museus — surgia como algo
vivo para mim, mesmo que eu ainda não fizesse ideia (e
não podia fazer nenhuma ideia) do que fosse o mercado da
arte. Só o descobriria mais tarde. E também não
imaginava o modo como a pintura, na forma de mercadoria,
circula no âmbito das economias capitalistas, e me
escapava o modo como é tratada pelos leiloeiros e
comerciantes da arte. Para mim, a arte apenas era,
existia como algo fundamental. E diante dela eu me
inquietava, sentindo-me convocado a ser também, o que
quer que fosse. No início, ignorei os riscos e me lancei
para dentro do seu âmbito, sem mirar um ponto de
chegada.
Por seu turno, a poesia, recém-descoberta, surgida há
pouco em meu horizonte de interesses, me apareceu como
atividade superior, não porque falasse de coisas
elevadas e estranhas ao cotidiano, mas porque era
possível empenhar nela uma existência. Estava pronto? De
maneira nenhuma. Meu encontro com a poesia não foi
diferente daquele de muitos garotos da minha idade
naqueles dias, que de repente se deparam com esse modo
de criação literária. Em geral, sem medirmos as
consequências, interessamo-nos por poetas de grande
estatura — os quais nos fascinam, mas cuja real
complexidade não podemos avaliar. Entramos em suas obras
por qualquer porta: uma coletânea de poemas, uma
antologia. Por um momento, a dificuldade das obras me
atordoou: afinal, me faltava erudição para compreender e
dar um sentido pleno à experiência. Porém cedo
compreendi que, embora necessária (e com isso me tornei
um leitor assíduo e persistente de obras que
frequentemente ultrapassavam minha capacidade de
compreensão), a arte — a arte em si, na sua profundidade
e largueza — não era questão de ser erudito somente.
Aparelhar-se, tornar-se sábio, ler muitos livros — tais
esforços se justificavam, compreendi; porém não fariam
de ninguém um poeta. Era preciso, antes, manter uma
abertura para a vida, que já no início se me afigurava
essencial e inerente ao sentido da criação e da leitura.
Essa abertura não se manifestava senão no próprio
processo de existir. Assegurava-me de que, para escrever
boa poesia, seria preciso primeiramente viver, embora
isso não me dispensasse das injunções do aprendizado.
A experiência da arte como mito, espanto e
transcendência, que experimentei na juventude, teve a
ver, creio, com tudo isso. Supus que, para vivenciá-la
na sua inteireza, não era preciso ver uma infinidade de
quadros ou ler uma biblioteca inteira de livros. Era
necessário, apenas, aprender a ler em profundidade — o
que só se tornaria possível na medida em que a arte e a
vida se encontrassem num ponto, fosse na leitura ou na
escrita. Uns poucos livros bastavam, pensei, bem como a
observação cautelosa, atenta e admirada de uns poucos
quadros reproduzidos em publicações. Os autores de
admiração tornaram-se os mais preciosos para mim. Um
poema de um grande poeta encontrado por acaso numa
página de jornal me parecia suficiente. Tornava-se um
ícone da profundidade em meu pensamento, e representava
a grandeza. O garoto que fui corria, penso hoje, um
grande risco de se tornar um idólatra. Mas não se
tratava mesmo de idolatrar? Não se tratava de perceber o
belo e conduzi-lo ao seu ponto mais elevado, tomando o
espaço da consciência como apoio, até que a elevação,
superados os riscos de naufragar no fetiche, se
convertesse numa iluminação?
*
Agora, no limiar da velhice,
tendo atravessado um mar de leituras e tendo escrito
milhares de páginas e poemas ao longo de mais de quatro
décadas de esforços, não posso senão concluir que a arte
é um esforço de elevação e de ultrapassagem do imediato,
avançando sempre em direção ao mais longínquo — àquilo
que não se pode ver com os olhos do interesse e da
mesquinhez cotidiana. Digo-o sem receio, porque assim
aprendi. Mas também chamo de profundidade aquilo que a
arte oferece, enquanto chamo de amplitude aquilo que ela
pode abarcar. É uma subida que nos aprofunda. No esforço
de atingi-las — profundidade e amplitude —, compreendi
muitas coisas, tanto a respeito de mim próprio quanto da
vida. O sentimento da arte brotou não só do desejo de
encontrá-la em cada objeto cuja razão de existir
consistia em revelá-la (o quadro, o poema, o romance, a
peça musical), mas também como um modo dessa abertura —
que era a da minha consciência para si mesma. Ao fazer
arte, eu aprendia tanto sobre os objetos admirados (os
quadros, os poemas), quanto sobre mim e meus esforços de
me aproximar deles. Nisso se consumiu a minha vida
naqueles anos e continua a se consumir até hoje.
Os jovens costumam andar muito rápido. Apressam-se,
correm, quase voam. De minha parte, também me
precipitava. Havia uma urgência de chegar. Agora, penso
que isso na minha existência causou turbulências,
gerando tormentos e conduzindo-me a muitos erros. Porém
às vezes penso que, sem a pressa, não me teria sido
possível sair do meu lugar. A pressa, na sua infinita
imperfeição, era o que me fazia aspirar ao distante.
Compreendi cedo que a vida é breve e que haverá pouco
tempo de realizar. Ora, quem não se apressa se perde
entre as distrações do caminho, e tal é o nosso quinhão.
Partimos de um ponto, que é sempre qualquer, como
viajantes esperando a condução à margem de uma estrada,
e para onde vamos é o incógnito. Mesmo assim é preciso
ir, sendo indispensável pôr-se em marcha.
O mito, a lenda dos grandes criadores nos ajuda na
viagem. Se esses artistas não nos revelam um modo, podem
ao menos indicar uma direção. Assim fiz e ainda faço, e
aqui estou hoje, parado à margem de uma estrada que pode
levar a qualquer parte. Era a qualquer parte que eu me
encaminhava desde o princípio — andarilho, errante,
peregrino de coisa nenhuma? Estava o meu destino
em todos os lugares e o sentido de persegui-lo em apenas
permanecer fiel a ele? É o quinhão ou o preço a pagar. E
de outra coisa não devemos nos ocupar nesta vida breve.
2/4-2-2026
|