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VOCAÇÃO
Não
tenho vocação para o fracasso,
e
no entanto eis que tudo me conduz:
eis
que tudo me força e incita ao passo,
me
leva em direção à inútil cruz.
Não
tenho vocação e nada faço
de
contrário à verdade que há na luz;
mais
eis que o dia vem com seu baraço,
e
me arrasta, e me instiga, e me seduz.
Quando
tomo a devida providência
(não
importa qual seja), precavido,
cioso
da diferença e do sentido,
eis
que a tarde, eis que a noite, eis que o momento,
eis
que um fantasma, um pó que vi no vento,
um
deslize, uma simples coincidência.
A
RESPOSTA
Eu,
que tenho a noção, eu, que compreendo;
eu,
que de cada coisa estou seguro
(a
não ser de mim mesmo, que me apreendo
num
limiar inerte do futuro);
eu,
que vou me supondo e me sustendo
como
um pássaro cego sobre um muro
e
do que não conheço ou não entendo
tiro
um saber esplêndido e maduro;
eu
– que já não procuro – encontro às vezes
no
início do que sou uma resposta
à
pergunta que faço em minha aposta:
que
não preenche o vazio que a suscita,
mas
permanece lá, constante e aflita,
sujeita
a mil senões e a mil reveses.
FUGIR O DOIDO
Fugir
o doido para longe,
nunca
se deixar apreender.
(Encapuzar-se
como um monge
sob
uma capa de não ser:
sob
um disfarce de talvez
que
não permita revelar
por
sob a cor da imediatez
o
que lá está sem nunca estar.)
Fugir
o doido para o centro
do
seu desaparecimento,
levando
consigo o tesouro
do
que foi pasmo e mau agouro,
do
que a mão jamais segurou,
pois
sempre esteve mais além:
irmão
do vento que o formou,
irmão
da chama que o retém.
MUITO
CEDO
É
muito cedo
para
o que quer que seja:
para
sair da cama
ou
para abrir a porta.
É
muito cedo para aplicar a inteligência
aos
inúteis problemas em que a mente patina;
muito
cedo para propor o acordo,
para
fazer o truque,
para
ensaiar o salto.
É
muito cedo para começar qualquer coisa,
para
amealhar um pecúlio de ideias,
para
cavar um poço no escuro,
para
cavar uma trincheira no caos
ou
para fazer um pacto,
ou
para alimentar o cão,
ou
para isto e para aquilo.
É
muito cedo, infinitamente cedo.
PERPLEXIDADE
Não
é a coisa –
é
a ideia da coisa
que
te estarrece: a coisa
permanece
lá, perfeitamente
equilibrada
no seu centro.
(Por
fora dela circulam os ventos,
a
voz, o sonho, a ansiedade do visto,
esse
desejo de segurá-la
que
te inquieta
e
de retê-la entre os teus dedos
por
um instante.)
Não
é a coisa (o que ela é)
que
te deixa estupefato:
é
a ideia que fazes dela,
assim
de pé
sobre
uma curva do teu caminho
ou
sobre alguma pedra
que
resiste à correnteza do rio.
A
coisa – em si mesma –
(um
ovo, por exemplo, uma luva, um chapéu)
permanece
lá,
perfeitamente
equilibrada
e
posta para sempre além do toque
e
para sempre além da perplexidade.
EM AGOSTO
Acomodar-se
às coisas: aceitar
o
formato de agosto – o vir do vento,
esta
chuva que cai sem se cansar
e
a experiência opressiva do ar cinzento.
Não
forçar os limites, não tentar
ultrapassar
a curva do momento;
não
querer outra cor, outro lugar,
outro
céu, outra fome, outro tormento. –
Ficar
aqui, somente, esclarecido
pela
justiça simples do possível,
que
torna suave a rosa antes do olvido:
cumprindo
uma tarefa que convém
e
suportando o gume do sensível,
que
arde em promessas sob a luz-ninguém.
SONETO
A
mim que me preocupam borboletas,
que
me dão pena as pedras e as asinhas,
que
me tiram o sono as avezinhas
de
plumagens escassas, incompletas;
a
mim que me perturbam as discretas
oscilações
das águas mais sozinhas
quando
as afagam brisas, e as florinhas
que
esmagaram as rodas das carretas;
a
mim me sobressalta este esquisito
estar
desperto à beira do infinito,
tendo
o céu por consolo, e a luz por fardo.
Chega-me
ao pensamento, e em minha insônia
cresce
e tem o sabor de uma acrimônia,
de
um fogo que me esfria e em que não ardo.
(In
O anjo de amanhã)
FALSA
LUZ
Que
me ignora e não sabe o meu tamanho;
que
quer que eu seja simples, comedido,
e
caiba numa fresta do sentido,
e
não seja tão novo, tão estranho,
tão
pouco familiar ao dia claro
em
que tudo se oferta e se desdobra,
transformando-se
em vento, em corpo, em obra –
vencida
a opacidade do anteparo.
Que
não sabe quem Sou no fundo obscuro
do
segredo que guardo diurnamente
e
minto em meu dizer, honestamente:
e
me toma por outro, no futuro,
e
me explica, com calma adequação,
na
falsa luz da falsa explicação.
QUINTAL
Que eu
penso nuns ocasos esbraseados,
nuns
loureiros acesos no quintal –
e
mais, e mais: em pássaros migrados,
de
vozes rubras, como num coral,
sobre
o meu sonho neutro e musical
que
uns arcanjos senis, equivocados,
quiseram consolar, como enviados
de um
rei que era senhor de bem e mal –
encontrando
estes tons do meu pomar,
aromas
e sabores tão suaves
que
não souberam como melhorar:
em
cores tão acesas, a fremir
entre
estações, verões e voos de aves
que
nem arcanjos podem corrigir.
TROFÉU
Foi ao
chão meu troféu, mal conquistado
à
resistência insípida dos dias.
Varreram-no tufões e ventanias,
até
deitá-lo ao solo, destroçado.
Era de
vidro e brisa, marchetado
de
delícias, e tédios, e agonias,
a que,
somando-se outras pedrarias,
se
acrescentava a luz do meu passado.
Quando
o vento o venceu sem grande esforço,
pensei
que de mim mesmo eu me afastava,
como
um peso alijado do meu dorso.
Porém
em cada esquina eu deparava
com a
recordação do que não veio,
acesa
numa chama em que não creio.
PARA ALBERTO DA CUNHA MELO
Basta
que seja deste modo
e que
o que chamamos de vida
(presente obscuríssimo, claro,
que se
abre apenas na saída
e que
não adianta tentar
pelo
barulho adivinhar),
seja
como um traje apertado,
feito
por número menor,
mas
que assim mesmo nos foi dado –
cujo
aperto só conhecemos
depois
que nele nos metemos.
16-10-2007
CANÇÃO
Coração
magoado,
é
justo que esperes.
Se
foi bom o dia
e
te trouxe o fruto
(ou
se deu errado) –
não
te desesperes.
Coração
aflito,
que
a noite gelou.
Se
é espessa de sol,
a
manhã, e morna
(e
o sonho é finito) –
prepara
o teu vôo.
Coração
aceso
de
uma estranha chama.
Bate
compassado,
pois
o vento é breve;
se,
intenso e surpreso,
o
esforço te chama,
não
te desesperes:
bate
decidido. –
Na
manhã tão lúcida,
tão
de primavera,
é
justo que esperes,
que
faças sentido.
CANÇÃO
SERENA
De longe, meu pai me acena,
da bruma que mal o oculta.
A sua face é serena,
e o seu aceno me indulta.
O esforço pertence ao dia,
que a noite cerra e modera.
(Meu pai tão bem o sabia,
como se o dia o dissera.)
Há no seu gesto uma calma
que o vento estende e acrescenta,
roçando à flor da minha alma
numa carícia nevoenta.
De pé na margem, escuto
um som que a noite anuncia
e espero só, de olho enxuto,
como meu pai o faria.
Quem sou agora? Não sei.
E é noite apenas lá fora. –
E esta canção que inventei
percute em meu sonho agora:
parado, sem meta e escopo,
à espera de um ser profundo
que venha encher com seu sopro
toda a ausência que há no mundo
Que
fazer desta cera, destas asas,
deste
desejo de multiplicar
que me
leva ao perigo, a me lançar
num
vôo temerário sobre as casas?
Devo
esquecer o prêmio, devo arder
para
aquém das feridas da ambição,
saciado só de que haja o baixo e o chão,
onde é
mais fácil desistir de ser?
Devo
me contentar com o que me chega
do dia
como tal – azul e duro,
sem
vertigens do sol para quem nega;
para
quem não procura senão isto,
uma
nesga de incerto e de imprevisto
que se
oculte nas dobras do futuro?
SONETO DE UM DIA QUALQUER
Vagabundo de sol e de sentido,
de não
ser necessário mais buscar,
porque
qualquer caminho há de levar
ao que
tenho tramado e pretendido
(sem
uma comoção, sem um gemido,
na
perfeição exata deste estar
à
deriva no que não chega a mar,
no que
não leva ao porto prometido) –
basta-me ser inverno, e haver a chuva
a
bater no telhado, e o dia escuro,
de um
ócio que me quadra como luva:
e este
não progredir para um final,
que é
todo o meu domínio e o meu fanal,
todo o
espanto que espero do futuro.
Um
afogado quer
agarrar-se a uma palavra
para
não submergir.
Como
pode
uma
palavra – osso do nada –
salvar
alguém?
Um
afogado quer
nadar
por cima dos dias,
nadar
por cima
de
suas esperanças
(nadar
por cima do silêncio)
agarrando-se a uma palavra
para
não afundar (?).
..................................................
E no
entanto afundar o envolve
por
todos os lados.
Amas-me fora do sonho,
amas-me antes de eu chegar,
como
quem tem um motivo,
como
quem quer começar.
Amas-me no adiantamento
que em
todo amar se contém:
como
quem observa ao longe
um
veleiro que ainda vem –
como
quem salta no escuro
à
espera de que haja um chão
onde o
seu salto repouse
depois
do risco e da ação
(depois da inútil vertigem
em que
todo risco vai
roçando o corpo de um neutro
vazio
de ar em que cai).
Se me
amas como quem bebe
uma
anterior água vã
que a
noite traz, mas não mata
a sede
que há na manhã,
é
porque tudo antecipas
num
lance por ocorrer,
certa
da glória e do prêmio
que os
dados hão de prover.
SEGREDO
A vida
é apenas segredo.
Não há
muito que saber.
Ninguém precisa saber
o que
contém teu segredo.
É só
um dizer de menos,
um
nada mostrar de teu,
pois
no que mostras de teu
já o
mostras pálido e menos.
(É só
um não revelar
do
enigma que jaz no fundo,
e
nunca atingir o fundo
no
esforço de revelar.)
A vida
é coisa e segredo
para o
teu pouco saber:
ser o
bastante saber
que há
vida, coisa e segredo.
Por
último, este fantasma,
com
que eu não tinha contado:
seu
vulto esquerdo, parado
(tal
mecanismo me pasma!)
à
porta do que intentei,
do que
pensei começar
e se
dissolveu no mar
daquilo que já não sei,
daquilo que o pensamento
perde
por fora e o persegue
como
uma obsessão do vento,
um dia
que nunca chegue.
Por
último, este profundo
nada
saber a respeito;
ser só
um gesso imperfeito,
um
tonto inseto sem mundo
a
esvoaçar em torno a um centro
(qualquer centro, desde que o haja) –
esta
comédia, por dentro,
esta
lama que me ultraja,
este
estar só, num caminho
(não
haver outro), este rosto
que me
surgiu num agosto,
este
ferrão, este espinho.
CANÇÃO
Meu poema fracassado,
minha mente vazia.
E chega a noite agreste,
atropelando o dia.
Muito fiz e tentei,
sem nada terminar:
o ouro que persegui
não era de encontrar.
Meu tédio, meu trabalho,
minha ambição de coisa;
meu tropeço, meu grito,
meu rubi, minha rosa –
meu pensamento enorme
de atingir a fronteira,
que o dia alimentava,
sem corpo e sem maneira;
tudo isso se desmente,
quando, chegado o
escuro,
desce o manto do sono
sobre esforço e futuro:
e dormir se entrelaça
às promessas da ação,
consumindo em seu fogo
(branco!) a exausta
intenção.
.........................................
Meu poema fracassado,
minha mente vazia.
Vem a noite e devasta
a plantação do dia.
Onde
acaba o dizível,
onde
as palavras falham,
ouve-se o mar tangível:
barcos, cheios, encalham.
E
elas, no esquivo pulso
das
ondas, se embaralham.
E
além, além, convulso
desdobra-se o horizonte,
além
de todo impulso.
Mas,
se o teu olho o afronte,
cega-o
o visto, e o mar vence-o;
e não
há fim ou fonte.
De lá
vem o silêncio.
BALANÇO
Para
cima era tudo. No balanço
a vida
de si mesma se esquecia
e,
quanto mais se alçava, mais subia,
mais
se entregava ao impulso do avanço,
mais
própria se tornava, mais do dia,
capturada no fluxo do remanso,
como
um inseto em fogo de alegria,
sem
tempo, sem memória, sem descanso.
Quanto
mais se esforçava em ser do vento,
em
dissolver-se toda em movimento
(vazia
de destino e de surpresa),
mais
em corpo de coisa se exaltava,
e ser
alto – em perder-se – compensava
nosso
existir rasteiro e sem beleza.
ESTA
NOITE
Esta
noite, em meu sonho (a multidão
ovacionava
o rei; um vôo de ave
em
movimento esdrúxulo; o conclave
dos
cardeais de abril e seu jargão),
eu
estava desperto, e minha mão
procurava
no escuro a obscura chave
que
abrisse a porta, resolvesse o enclave
(mesmo
que não houvesse solução) –
e
eu era outro, sem sê-lo, nem melhor,
nem
eu mesmo, mas outro, mas Alguém,
num
janeiro, entre os hunos – e uma flor
na
lapela do equívoco (que importa?). –
Esta
noite, em meu sonho, como quem
se
esquiva ou atravessa alguma porta.
INTIMAÇÃO
De
girar e oscilar entre penhascos
de
não saber o instante de parar,
de
buscar solução na chuva e no ar,
e
não haver um sol para os teus ascos;
de
procurar Jerusaléns, Damascos,
uma
velha Bizâncio à beira-mar,
e
o que mais haja para procurar:
uma
pista, um rumor, rastros de cascos;
de
ter diante de ti teu duplo cego –
teu
irmão, teu igual, teu inimigo,
e
mendigar um trapo de sossego
onde
só existe confusão, perigo
(e
essa raiva do esforço que te invade) –
tu
te tornas amargo por bondade.
ELEGIA
BREVÍSSIMA
Uma
vez traído
outubro
entregue
aos ventos da
derrelição.
In
Lâmina (e outros poemas)
- 83 kb
AO
NÍVEL DO CHÃO
Sempre
retornamos
ao
nível do chão
Não
importa a extensão do vôo
não
importa a altura atingida
se
comparada com a precariedade das asas
Não
importa que se tenha ultrapassado um limite
Sempre
retornamos
ao
nível do chão
ao
nível do chão do que é o chão
por
entre as pedras e os galhos secos e as folhas secas
do
chão
no
chão
que
dá a medida (ponto de partida
ponto
de chegada) de tudo quanto
somos
capazes de arder:
que
dá a medida da ultrapassagem
do
fogo que somos capazes de arder
Sempre
retornamos
ao
nível do chão.
In
Lâmina
(e outros poemas)
- 83 kb
O
OUTRO POEMA
a
Mauro Mendes
Devo
escrever um poema
que
fale desse dever;
que,
além do que possa ser,
seja
também um emblema.
(Mas
o poema que escrevo
não
é o poema que devo.)
Devo
escrever uma frase
que
diga tudo o que espero:
que
seja tudo o que quero,
sem
nódoa alguma que a atrase.
(Mas
frase alguma que escrevo
é
aquela frase que devo.)
Devo
escrever esse verso
que
diga tudo o que penso –
que
não me deixe suspenso
entre
ser eu e diverso.
(Mas
este verso que escrevo
não
é aquele que devo.)
Devo
escrever um poema
que
fale disso e do mundo,
que
seja exato e profundo
como
convém ao seu tema.
(Mas
no poema que escrevo
não
está o poema que devo.)
MOTOR
Quieto.
Deixa o motor
da
noite te impulsionar.
Não
seja apenas ardor
o
que tu tens a levar.
Deixa
também que o que for
dormir
e descontinuar
te
leve sobre o incolor
do
sonho – impreciso mar.
Não
tenhas fardo maior
do
que, para transportar,
tua
mágoa e teu horror,
que
vêm de tempo e lugar. –
E
seja a noite o valor
que andaste, cego, a
implorar.
PAISAGEM
No
tumulto do dia estou desperto,
a
olhar esta paisagem, que me vê.
(Sou
aquele que sonha no deserto,
aquele
que constata mas não crê.)
Quando
me determino e avanço, certo
da
miragem que em mim se tornou fé,
em
direção à flor do dia aberto,
encontro
a confusão que a luz me dê.
E
paro, entre perplexo, entre intrigado
de
meu próprio avançar, que não contém
o
sentido do norte procurado
e
progride na treva que o retém. –
E
olho em volta essa coisa erma e vazia
a
que chamei paisagem, flor e dia.
AO
PRÍNCIPE DE TODOS OS LEITÕES
O
que é a morte
para
ti,
cavaleiro,
senão
um
motivo a mais,
um
trapézio a mais
para
ti
que
vais
de
poleiro
em
poleiro?
O
que é, senão
um
trapézio a mais
para
ti
que
tens
alma
de artista,
corpo
de
trapezista?
Senão
um
salto a
mais
no
ar
onde
toda a graça,
toda
a beleza
está
em
apenas
saltar?
TUDO
ERA SONHO
Tudo
era sonho no começo...
Tudo
era sonho?
(A
sombra do sonho se estendeu
sobre
o deserto.)
Tudo
era duplicação
no
espaço da claridade: a própria claridade
uma
ilusão da luz a jorrar
sobre
a nitidez inútil das horas.
PÁSSAROS
Lá
fora os pássaros já cantam
sua
algazarra cotidiana,
com
voz aguda de estribilho
que
a flor do dia ilude, engana.
Como
se a noite não tivesse
pousado
neles seu escuro
(trancado
neles sua porta
que
vem abrir o dia puro);
como
se a noite não tivesse
plantado
neles o seu milho
(lançado
neles seu esterco
que
agora é pólen no estribilho –
que
agora é trino na algazarra
e
confusão na claridade) –
cantam,
com voz de quem não sabe
(que
o sol acende, a luz invade),
sem
nada neles que recorde
(na
flor do dia a refulgir)
rastro
ou indício da erma noite
que
os inundou e os fez dormir.
APROPRIADO
PARA UM DIA DE CHUVA
Com
um olho
de
quem não dormiu o suficiente
e
há de se sentir insuficiente
(e
há de se sentir estrangeiro
até
mesmo
na
casa do ser) –
penso:
a questão do ser
não
pode ser solucionada
com
barbitúricos.
Não
pode ser sequer mencionada,
nem
mesmo depois
de
uma boa noite de sono:
porque,
depois de uma boa noite
de
sono, tudo o que vem,
tudo
o que a manhã nos devolve
é
o dia que se nos devolve:
suas
asas, seu anjo,
suas
agonias domésticas
(seu
inverossímil enredo).
Não
pode ser, porque
é
a questão do ser:
e
a questão do ser
não
é senão a própria questão do ser –
este
estar aqui, a dizer
isto,
a girar
e
a responder a uma pergunta
que
não sei sequer formular.
SOMENTE
O QUE É IRREAL
Somente
o que é irreal devia interessar-nos,
o
que não tem poder de conformar o dia:
o
que não tem contorno e cor na luz vazia –
e
existe apenas no indeciso, a dissipar-nos.
Somente
o que não vem do sol que nos esfria,
que,
exato, nos impõe seu jugo, a dispersar-nos,
devia
– na intenção – ter o dom de elevar-nos
àquele
céu que não existe, mas nos guia.
O
que não tem sabor de ser na claridade
e
à noite nos assalta, entre as sombras que vêm
brincar
ao nosso lado – ermas de imensidade:
o
que na confusão do dia é só desdém,
só
pensamento que se gasta e que se evade,
como
uma porta que se fecha e nos retém.
ABRO
ESTE LIVRO
Abro
este livro, que leio,
pouco
profundo na tarde.
Há
nele uma chama que arde,
um
fogo impulsivo (creio)
que,
por um nada (pudesse
incendiar
o pensamento),
incendiaria
– portento –
qualquer
idéia que houvesse.
(Mas
não há idéia nenhuma,
e
por isso é que abro o livro:
entre
seus sóis me equilibro,
obtuso,
à procura de uma.)
Abro
este livro, que estuda
o
meu olhar distraído
no
rastro de algum sentido,
de
alguma senda que o iluda.
Mas
pouco nele repousa
meu
olho e logo se esquiva:
que
ler é esboço e deriva,
e
a vida é sempre outra coisa.
POR
UMA FRESTA DA NOITE
Há
o impossível.
Há
o que não podemos atingir,
as
margens que não podemos atingir,
por
mais que nos debatamos à superfície,
por
mais hábeis que sejamos em nadar.
Há
o opaco, o duro, o difícil,
o
inapreensível,
a
corda que não se pode romper,
o
peso que não se pode transportar.
Há
o inalcançável,
o
que só se reflete no olho –
o
pássaro nas alturas,
flecha,
distância,
cadeia
de montanhas
que
não se pode transpor.
A
REALIDADE NÃO É
A
realidade não é
um
estado de espírito.
Não
é
o
que se esconde por trás
de
um estado de espírito.
Não
é
sequer
o
que não é
um
estado de espírito.
A
realidade,
seja
o que for
(seja
aqui
ou
no planeta Marte,
seja
no mar
ou
num trem a vapor),
é
só aquilo de que
não
se pode
dispor.
O
VENTO GEME LÁ FORA
O
vento geme lá fora
com
um sotaque europeu.
Por
dentro a sombra demora,
e
há na alma um órfão que chora:
nada
é próprio, nada é meu.
A
noite passa, rangendo
sobre
o que é casa e lugar.
E
aos poucos vou me esquecendo,
vou
como uma água descendo,
até
o sono chegar.
Na
confusão que, no escuro,
o
pensamento contém
(a
arder, impreciso e obscuro),
confio-me
– ermo – ao futuro,
espero
a paz de Ninguém.
O
vento geme lá fora,
a
se esgarçar nos beirais.
Pesa
uma angústia sobre a hora,
e
agora é como se outrora –
e
eu mesmo já não sou mais.
A
SEMENTE
Fui
plantar outro dia uma semente
(que
semente era aquela eu não sei bem).
Nasceu-me,
em vez de pêra, uma serpente –
que
não me disse o que era o mal, o bem.
Com
seu olho deserto, que não tem
umidade
nenhuma e só pressente
para
além da aparência o que esta tem,
e
a luz não esclarece nem desmente,
ficou
a me observar, como se eu fosse
não
o plantador do arbusto em que floriu
sua
pele de um brilho esquivo e doce:
mas
o árduo tentador, cuja brandura
baniu
para um inferno de amargura
uma
Eva nua que jamais sorriu.
UM
OLHO
I
Um
olho
baço,
cego,
e
nenhum
pensamento
na
noite opaca.
E
estar girando
como
uma
folha
seca
no
vento:
o
vento
não
é nenhum
pensamento.
Não
é
senão
o
que sopra
lá
fora.
(Seu
assobio
nos
beirais.)
Um
olho
neutro,
nulo –
porém
cego,
na
noite
fria.
II
Vasto
é
o círculo
que
a noite traça
ao
redor
do
olho:
e
negro
e
lento
e
impenetrável
por
dentro
como
um caroço
na
treva –
como
uma
pedra.
E
espesso
mais
que o
pensamento
que
tenta
atravessá-lo
na
escuridão.
A
ANTERO DE QUENTAL
A
morte não nos cura. E, entanto, apaga
certa
cor que nos vem de ver e ser.
Como
uma chuva lenta, nos alaga –
mitiga
a sede inquieta de viver.
(Mitiga-a
pelo excesso: pelo haver
mais
água do que aquela que a alma traga.)
Não
soluciona o nó do conhecer,
nem
o salva do oceano em que naufraga.
Mas
– onde nada é claro ou se resolve –
abre
na noite funda da incerteza
uma
espécie de porta para o aquém:
que
a alma cruza, no encalço de ninguém,
sem
ter sequer, cruzando-a, uma surpresa,
como
o negro no negro se dissolve.
CONSCIÊNCIA
Dormem bem (é o que dizem)
os que têm a consciência limpa.
Também já tive a consciência limpa,
agora a tenho vazia –
o que não impede que, a cada noite,
eu continue a chafurdar na insônia.
Têm um sono de pedra (é o que dizem)
os que respeitam os ditames
da moral e vivem segundo as conveniências
da razão. Mas isso não impede...
Por ora só tenho esta consciência vazia
e, em todas as noites, a insônia.
(O dia lá fora é frio e cinzento
e enfarruscado de norte a sul,
com ameaça de chuva:
é inverno, e inverno
em todos os quadrantes.)
Dormem como dormem os peixes,
porque têm a consciência tranqüila.
Também já a tive tranqüila,
agora a tenho vazia,
o que não é nenhuma vantagem.
(O que não impede que, a cada noite, eu me afunde na insônia
e role de encontro
a grandes massas de pensamentos imprestáveis.)
Dormem como dormem as pedras,
mas isso nada tem a ver com consciência.
(Poemas
de Renato Suttana)
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