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Opinionautas

 

Poemas de Renato Suttana

 

Suave manhã

O deserdado

Passar

Demolição

Estrada de erro

O pássaro

Empório

No círculo de giz

Olho. Vejo.

Cotidiano

Perspectiva

Troco

Se eu desistir

Se me desdobro

Até o fim

No azul

Vocação

A resposta

Muito cedo

Perplexidade

Em agosto

Soneto

Falsa luz

Troféu

Canção

Canção serena

Asas

Soneto de um dia qualquer

O afogado

Antecipação

Segredo

Por último

Canção

Esta noite

Intimação

Elegia brevíssima

Ao nível do chão

Ao príncipe de todos os leitões

Tudo era sonho

Apropriado para um dia de chuva

Somente o que é irreal

Abro este livro

O vento geme lá fora

Um olho

Quintal

Busco

A Antero de Quental

Consciência

 

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Frutos

Musa eletrônica (em parceria com Wladimir Saldanha)

 

Poemas de Renato Suttana no site gripe das aves

 

 


SUAVE MANHÃ


Manhã de hoje, suave manhã,
de amplos caminhos, de mil sendas
e encantos mornos de paisagem
(que nem a luz do inverno, mesquinha,
torna menos dóceis, menos suaves,
menos propícios, menos caroáveis) —
manhã de agora, branca manhã,
manhã do dia que bate à porta,
que se abre — a flor verdadeira —,
a nos dizer que a ansiedade é vã.

Manhã de hoje, clara manhã:
manhã de julho que vem trazendo,
que surge, abrindo caminho
entre os receios da noite negra
(tão pontiaguda a sua regra,
em que o desejo se descompassa:
que o tecido da vida esgarça) —
manhã de agora, branca manhã
do imenso dia que faz lá fora,
a nos dizer que a ansiedade é vã.




O DESERDADO


Se o barulho da noite
não te deixa dormir,
se o gemido do vento
te proíbe repousar,
se a corneta da chuva
te força a desistir —
pede a Deus que os convença
a silenciar.

Se o farfalho das folhas
dói em tua cabeça
e os passos do fantasma
fazem reverberar
um oco de distância
que não podes medir —
pede a Deus que os convença
a silenciar.

Se há um motor no teu sangue
e outro no teu ouvido
roendo um naco da sombra
que não há remendar,
se há uma faca no vento
e um malho no trovão —
pede a Deus que os convença
a silenciar.

Se há uma trompa na chuva
e um tarol no telhado
açulando no escuro
a fanfarra do azar,
se uma engrenagem perra
range em cada beiral —
pede a Deus que os convença
a silenciar.

Se a goteira é um cachorro
ladrando em teu quintal
e o escândalo do vento
te impede de avançar,
ganindo no teu sangue
como um gonzo emperrado —
pede a Deus que os convença
a silenciar.



PASSAR

Passar.
Anonimamente passar.
Não prender como num galho
o próprio nome,
para que os outros o vejam
quando passarem também.

Não ter compromissos com a aragem,
não estabelecer acordos
com as imprecisões da chuva.
Mas passar, simplesmente,
como passam as horas e as estações,
e sem nenhuma expectativa
de retornar, sem esperança nenhuma
de que um novo acontecimento
venha engendrar um novo início.

Passar, simplesmente, completamente,
como quem passa por uma estrada
e dela não leva a não ser
uma recordação distraída
(ou nenhuma recordação,
porque não vale a pena levar).

Como um pássaro para o longe,
anonimamente, translucidamente.
Irrepetivelmente.



 

DEMOLIÇÃO

 

Cortejei o mistério — e fui vencido

no silêncio da noite rigorosa.

Desci daquela altura perigosa,

porque subir deixou de ter sentido.

 

Com passo moderado e bem medido,

da borda me afastei vertiginosa,

aonde a esperança havia, artificiosa,

guiado o fraco penhor do meu gemido.

 

Tornei-me, embaixo, aquele que de arder

não tinha mais senão uma memória,

acrescentada ao pasmo de descer. —

 

Numa estupefação da alma prolixa,

fui demolindo os marcos da vitória,

já sem qualquer valor na sombra fixa.


(In Quando me abriram portas)

 

 

 

ESTRADA DE ERRO

 

Por esta estrada de erro

que atravessa o deserto

e as regiões do desterro —

conduzindo a um longe

que talvez não baste,

que talvez nem importe —

vou mais devagar.

 

Por este caminho de erro

que me trouxe até aqui

e me fez chegar, exausto

de tropeços e tentativas

e por incapaz de acerto

(porque era apenas de ir) —

vou mais devagar.

 

Por esta estrada que vai

e leva para mais longe,

e leva para muito longe,

através do deserto,

atravessando por erro

os desertos de sempre

e as regiões do desterro

 

(que quero eu achar

nas regiões do desterro,

que tenho a ver

com os desertos do erro

que estão em toda parte

e a que se chega sempre

por estradas que dão

 

em qualquer lugar?) —

vou bem mais devagar.

 

 

 

O PÁSSARO

 

Sou o pássaro em seu mais alto galho.

Quem tenta comandar meu coração,

estendendo na minha direção

um cantil, uma côdea, um agasalho;

 

quem se arroja na noite ao (vão) trabalho

de abrir-me em plena chuva o seu portão

e me oferece abrigo e proteção —

não conhece o que quero ou o que valho.

 

Abre-me, inutilmente, uma passagem

que leva ao centro morno do seu dia

e que entanto não cruzo, pois a imagem

 

é que me põe em marcha e me desvia:

e desejar um bem que não existe,

e sequer entender em que consiste.

 

 

 

EMPÓRIO

 

Timbre: rompante, a megalomania...

(Camilo Pessanha)

 

Fui ao vento pedir uma riqueza

de que o vento, já velho e despossuído,

não se lembrava mais, tendo-a perdido

entre as monções do engano e da beleza.

 

Curvado ao peso da delicadeza

que a tal ponto me havia conduzido

(sem meta que eu tivesse pretendido),

nada achei que me desse uma surpresa,

 

senão o labirinto, já ruinoso,

e os vidros, e os vitrais despedaçados,

e o projeto do salto, desastroso,

 

e a coleção dos uivos, e o cansaço,

saudade, grito, a pretensão de espaço,

asas de grifo — megalomania.


(In Quando me abriram portas)

 

 

 

NO CÍRCULO DE GIZ

 

No círculo de giz

que você traçou à sua volta

não entram árvores nem chuvas,

não entra a velocidade do pássaro,

não entra um grito,

não entra o entulho.

 

No círculo de giz

que você traçou à sua volta

não entram as confusões da verdade,

não entra a necessidade do erro,

as cruzes sobre a colina,

a flecha, a bala, a cimitarra,

não entra o tigre com sua astúcia,

não entra o fogo.

 

Nada penetra na fortaleza de giz

que abre uma clareira na paisagem,

que rouba para si

um naco de paisagem

inexpugnável e vão.

 

No círculo de giz

você é o senhor absoluto

de todos os assuntos.

 

 

 

OLHO. VEJO.

 

O que é o mundo? Olho e não vejo.

Quero encontrar na escuridão

a ponta desse fio-ensejo

que me forneça a explicação.

 

Mas que bobagem! Olho. Vejo.

Tudo o que vejo é para ver:

seja o visível que desejo,

seja o que foge, a se esconder.

 

Faço a pergunta. E à minha volta

a roda gira sem parar,

trazendo sempre a cada volta

uma pista que hei de ignorar:

 

um nome, um caco, algum reflexo

que me convém reconstituir,

tentando (em vão) achar o nexo

do que vem porque tem de vir

 

e se desdobra em cor disjunta

de que não dou a explicação,

me demorando na pergunta

que fui fazer à escuridão.

 

 

 

COTIDIANO

 

O mar em que me afogo

é cotidiano.

(Correnteza em que desço,

chuva que não revogo —

altura que não alcanço.)

 

A enchente em que sucumbo

é de todos os dias.

(Águas de cada dia,

tropeços, pedras, nuvens,

ventanias.)

O rio em que me desço.

 

A escuridão em que não vejo

é cotidiana:

o mar, a enchente, o poço,

a mão que me acena de longe,

o ar que me dana —

aquilo que não sei.

(A queda que é só poço.)

 

O oceano em que naufrago,

o rio em que me afogo,

o vento em que sufoco.

 

 

 

 

Que gastes lá teu ouro, teu minuto,

teu grama de progresso, teu punhado

de futuro — antevisto, calculado,

todo pejado de valor e fruto;

 

que lá queiras chegar, de olho impoluto,

como quem leva a urgência de um recado,

insone, mas cumprindo algum mandado,

por força do insondável, do absoluto;

 

que lá passes um dia, um mês, um ano

(quem sabe a vida inteira), convencido

de que encontraste a pista, o portulano,

 

e de que lá não entras por abuso

e não és, sem estirpe e sem partido,

só um indesejável, um intruso.

 

 

 

PERSPECTIVA

 

Tudo é perspectiva.

 

Entre as colunas da tarde,

calcinadas de tédio,

entre as paredes brancas

que um sol entediado

recresta do alto —

 

tudo é dispersão

e tédio igual ao tédio:

pensamentos de areia

escorrendo secos

sobre superfícies secas.

 

Entre os devassados

esconderijos da tarde

(onde ninguém pode estar seguro,

onde ninguém alcança

proteger-se dos dardos) —

 

tudo é superfície,

tudo é terreno abrasado,

e paredes, e branco,

e tédio igual ao tédio

entre pensamentos de areia.

 

Tudo é perspectiva.

 

 

 

TROCO

 

Perdulário das horas, dos minutos,

do dia que eu não soube decifrar

(eram cinco de março num lugar),

troco por apreensão colheita e frutos:

 

troco por incerteza ar e momento

e por momento o todo do futuro,

com seu sabor insípido e perjuro

que se gasta num voo do pensamento.

 

Troco ânimo e agudeza por preguiça

e pelo gosto (ou raiva) de entender

que a alma não cabe nisto, movediça:

 

e que o olho nada diz ao sol que nasce,

que o esforço adula o horror de não poder

e que todo progresso é pasmo e impasse.

 

 

 

SE EU DESISTIR

 

Se eu desistir, se eu disser

a mim mesmo que não posso;

se eu não tentar ir mais longe,

ousar mais ou ir mais alto;

se eu só, parado, comigo

me contentar, me bastar

e não pedir ao destino

e não rezar a algum deus,

mas em minha própria casa,

mas em meu próprio castelo

(que não é castelo algum);

se eu não me deixar levar

pela ideia sedutora,

pela ilusão sedutora

do mais amplo e do mais vasto,

pela visão do mais rico;

se eu, mesmo que insatisfeito

e falho de asa e valor,

e neutro de ouro e ambição,

a mim mesmo me disser

que basta não ter chegado,

que basta não ter ousado,

que não ter chegado foi

o mais longe que pude ir,

que não havia mais longe,

que não havia horizonte

e que por isso bastou

ter ido até onde fui

(que sei eu?); se eu me disser

que estar em casa é o bastante,

que me convém não ousar

e que é melhor não ousar,

não ir tão longe, não ser

o que tentou ir tão longe,

que basta apenas ficar,

permanecer, demorar,

que a mim me basta ficar;

se eu me disser a mim mesmo,

se eu não tentar ir mais longe,

se eu não fizer a besteira

de tentar me ultrapassar,

de ir aonde não posso ir,

de ser quem tenta ir mais longe,

de ser quem tenta ir mais alto.

 

 

 

SE ME DESDOBRO

 

Se me desdobro, vão, na noite escura

dos passos em que — cego — me desdobro,

se após haver tombado me recobro,

recuperando o fogo que em mim dura,

 

no qual forjo, sem medo ou amargura

(se me disperso em duplo, se me dobro,

se me triplico e, ao fim da conta, sobro),

o ricto-esgar da máscara futura,

 

caio sempre em mim mesmo, novamente

convertido naquele de que tenho

notícia a cada instante diferente:

 

e que é como uma treva em que me embrenho

(eu, que da manhã clara não desisto)

e em que não sei quem sou, se sou, se existo.


(In Quando me abriram portas)

 

 

 

ATÉ O FIM

 

Que não.

Que não importa.

Que do modo como está é o bastante —

que ser o bastante não importa:

que durar entre os momentos,

que persistir, que restar

não tem a menor importância.

 

Que só tem importância compreender

que, sendo este o modo

e sendo este o lugar,

tudo o mais é somenos,

porque tudo o mais é tal qual

e é o que menos importa,

porque à noite se dissipa no sono.

 

Que não.

Que nunca mais.

Que deste modo ou em qualquer lugar

é sem importância e sem brilho,

e assim será até o fim (com seus abismos,

suas janelas, seus passadiços, seu laços)

e jamais será o bastante,

 

qualquer que seja o caso ou o desejo,

até o fim.

 

 

 

NO AZUL

 

Asas no azul — melhor não merecê-las,

melhor não açular tal confusão,

nem desejar a fímbria das estrelas,

nem querer as vertigens da amplidão.

 

Melhor ficar em casa sem sofrê-las,

longe da mágoa em que redundarão

as angústias exaustas de perdê-las

quando estourar a fúria do tufão.

 

Asas na luz — melhor não cultivá-las,

nem o prazer senil de cobiçá-las,

havendo sempre inverno após o outono:

 

e desistir do voo e da afoiteza,

e aniquilar os sonhos de grandeza

num círculo de pasmo, queda e sono.

 

 

 

VOCAÇÃO

 

Não tenho vocação para o fracasso,

e no entanto eis que tudo me conduz:

eis que tudo me força e incita ao passo,

me leva em direção à inútil cruz.

 

Não tenho vocação e nada faço

de contrário à verdade que há na luz;

mas eis que o dia vem com seu baraço,

e me arrasta, e me instiga, e me seduz.

 

Quando tomo a devida providência

(não importa qual seja), precavido,

cioso da diferença e do sentido,

 

eis que a tarde, eis que a noite, eis que o momento,

eis que um fantasma, um pó que vi no vento,

um deslize, uma simples coincidência.

 

 

 

A RESPOSTA

 

Eu, que tenho a noção, eu, que compreendo;

eu, que de cada coisa estou seguro

(a não ser de mim mesmo, que me apreendo

num limiar inerte do futuro);

 

eu, que vou me supondo e me sustendo

como um pássaro cego sobre um muro

e do que não conheço ou não entendo

tiro um saber esplêndido e maduro;

 

eu — que já não procuro — encontro às vezes

no início do que sou uma resposta

à pergunta que faço em minha aposta:

 

que não preenche o vazio que a suscita,

mas permanece lá, constante e aflita,

sujeita a mil senões e a mil reveses.

 

 

 

MUITO CEDO

 

É muito cedo

para o que quer que seja:

para sair da cama

ou para abrir a porta.

 

É muito cedo para aplicar a inteligência

aos inúteis problemas em que a mente patina;

muito cedo para propor o acordo,

para fazer o truque,

para ensaiar o salto.

 

É muito cedo para começar qualquer coisa,

para amealhar um pecúlio de ideias,

para cavar um poço no escuro,

para cavar uma trincheira no caos

ou para fazer um pacto,

ou para alimentar o cão,

ou para isto e para aquilo.

 

É muito cedo, infinitamente cedo.

 

 

 

PERPLEXIDADE

 

Não é a coisa —

é a ideia da coisa

que te estarrece: a coisa

permanece lá, perfeitamente

equilibrada no seu centro.

 

(Por fora dela circulam os ventos,

a voz, o sonho, a ansiedade do visto,

esse desejo de segurá-la

que te inquieta

e de retê-la entre os teus dedos

por um instante.)

 

Não é a coisa (o que ela é)

que te deixa estupefato:

é a ideia que fazes dela,

assim de pé

sobre uma curva do teu caminho

ou sobre alguma pedra

que resiste à correnteza do rio.

 

A coisa — em si mesma —

(um ovo, por exemplo, uma luva, um chapéu)

permanece lá,

perfeitamente equilibrada

e posta para sempre além do toque

e para sempre além da perplexidade.

 

 

 

EM AGOSTO

 

Acomodar-se às coisas: aceitar

o formato de agosto — o vir do vento,

esta chuva que cai sem se cansar

e a experiência opressiva do ar cinzento.

 

Não forçar os limites, não tentar

ultrapassar a curva do momento;

não querer outra cor, outro lugar,

outro céu, outra fome, outro tormento.

 

Ficar aqui, somente, esclarecido

pela justiça simples do possível,

que torna suave a rosa antes do olvido:

 

cumprindo uma tarefa que convém

e suportando o gume do sensível,

que arde em promessas sob a luz-ninguém.

 

 

 

SONETO

 

A mim que me preocupam borboletas,

que me dão pena as pedras e as asinhas,

que me tiram o sono as avezinhas

de plumagens escassas, incompletas;

 

a mim que me perturbam as discretas

oscilações das águas mais sozinhas

quando as afagam brisas, e as florinhas

que esmagaram as rodas das carretas;

 

a mim me sobressalta este esquisito

estar desperto à beira do infinito,

tendo o céu por consolo, e a luz por fardo.

 

Chega-me ao pensamento, e em minha insônia

cresce e tem o sabor de uma acrimônia,

de um fogo que me esfria e em que não ardo.

 

(In O anjo de amanhã)

 

 

 

FALSA LUZ

 

Que me ignora e não sabe o meu tamanho;

que quer que eu seja simples, comedido,

e caiba numa fresta do sentido,

e não seja tão novo, tão estranho,

 

tão pouco familiar ao dia claro

em que tudo se oferta e se desdobra,

transformando-se em vento, em corpo, em obra —

vencida a opacidade do anteparo.

 

Que não sabe quem Sou no fundo obscuro

do segredo que guardo diurnamente

e minto em meu dizer, honestamente:

 

e me toma por outro, no futuro,

e me explica, com calma adequação,

na falsa luz da falsa explicação.


 

TROFÉU

 

Foi ao chão meu troféu, mal conquistado

à resistência insípida dos dias.

Varreram-no tufões e ventanias,

até deitá-lo ao solo, destroçado.

 

Era de vidro e brisa, marchetado

de delícias, e tédios, e agonias,

a que, somando-se outras pedrarias,

se acrescentava a luz do meu passado.

 

Quando o vento o venceu sem grande esforço,

pensei que de mim mesmo eu me afastava,

como um peso alijado do meu dorso.

 

Porém em cada esquina eu deparava

com a recordação do que não veio,

acesa numa chama em que não creio.


(In Altiplano)

 

 

CANÇÃO

 

Coração magoado,

é justo que esperes.

Se foi bom o dia

e te trouxe o fruto

(ou se deu errado) —

não te desesperes.

 

Coração aflito,

que a noite gelou.

Se é espessa de sol,

a manhã, e morna

(e o sonho é finito) —

prepara o teu voo.

 

Coração aceso

de uma estranha chama.

Bate compassado,

pois o vento é breve;

se, intenso e surpreso,

o esforço te chama,

 

não te desesperes:

bate decidido. —

Na manhã tão lúcida,

tão de primavera,

é justo que esperes,

que faças sentido.


(In Altiplano)

 

 

CANÇÃO SERENA

 

De longe, meu pai me acena,

da bruma que mal o oculta.

A sua face é serena,

e o seu aceno me indulta.

 

O esforço pertence ao dia,

que a noite cerra e modera.

(Meu pai tão bem o sabia,

como se o dia o dissera.)

 

Há no seu gesto uma calma

que o vento estende e acrescenta,

roçando à flor da minha alma

numa carícia nevoenta.

 

De pé na margem, escuto

um som que a noite anuncia

e espero só, de olho enxuto,

como meu pai o faria.

 

Quem sou agora? Não sei.

E é noite apenas lá fora. —

E esta canção que inventei

percute em meu sonho agora:

 

parado, sem meta e escopo,

à espera de um ser profundo

que venha encher com seu sopro

toda a ausência que há no mundo.


(In Altiplano)

 

 

ASAS

 

Que fazer desta cera, destas asas,

deste desejo de multiplicar

que me leva ao perigo, a me lançar

num voo temerário sobre as casas?

 

Devo esquecer o prêmio, devo arder

para aquém das feridas da ambição,

saciado só de que haja o baixo e o chão,

onde é mais fácil desistir de ser?

 

Devo me contentar com o que me chega

do dia como tal — azul e duro,

sem vertigens do sol para quem nega;

 

para quem não procura senão isto,

uma nesga de incerto e de imprevisto

que se oculte nas dobras do futuro?


(In Altiplano)

 

 

 

SONETO DE UM DIA QUALQUER

 

Vagabundo de sol e de sentido,

de não ser necessário mais buscar,

porque qualquer caminho há de levar

ao que tenho tramado e pretendido

 

(sem uma comoção, sem um gemido,

na perfeição exata deste estar

à deriva no que não chega a mar,

no que não leva ao porto prometido) —

 

basta-me ser inverno, e haver a chuva

a bater no telhado, e o dia escuro,

de um ócio que me quadra como luva:

 

e este não progredir para um final,

que é todo o meu domínio e o meu fanal,

todo o espanto que espero do futuro.


(In Altiplano)

 

 

O AFOGADO

 

Um afogado quer

agarrar-se a uma palavra

para não submergir.

 

Como pode

uma palavra — osso do nada —

salvar alguém?

 

Um afogado quer

nadar por cima dos dias,

nadar por cima

 

de suas esperanças

(nadar por cima do silêncio)

agarrando-se a uma palavra

 

para não afundar (?).

..................................................

E no entanto afundar o envolve

por todos os lados.


(In Altiplano)

 

 

ANTECIPAÇÃO

 

Amas-me fora do sonho,

amas-me antes de eu chegar,

como quem tem um motivo,

como quem quer começar.

 

Amas-me no adiantamento

que em todo amar se contém:

como quem observa ao longe

um veleiro que ainda vem —

 

como quem salta no escuro

à espera de que haja um chão

onde o seu salto repouse

depois do risco e da ação

 

(depois da inútil vertigem

em que todo risco vai

roçando o corpo de um neutro

vazio de ar em que cai).

 

Se me amas como quem bebe

uma anterior água vã

que a noite traz, mas não mata

a sede que há na manhã,

 

é porque tudo antecipas

num lance por ocorrer,

certa da glória e do prêmio

que os dados hão de prover.


(In Altiplano)

 

 

 

SEGREDO

 

A vida é apenas segredo.

Não há muito que saber.

Ninguém precisa saber

o que contém teu segredo.

 

É só um dizer de menos,

um nada mostrar de teu,

pois no que mostras de teu

já o mostras pálido e menos.

 

(É só um não revelar

do enigma que jaz no fundo,

e nunca atingir o fundo

no esforço de revelar.)

 

A vida é coisa e segredo

para o teu pouco saber:

ser o bastante saber

que há vida, coisa e segredo.


(In Altiplano)

 

 

 

POR ÚLTIMO

 

Por último, este fantasma,

com que eu não tinha contado:

seu vulto esquerdo, parado

(tal mecanismo me pasma!)

 

à porta do que intentei,

do que pensei começar

e se dissolveu no mar

daquilo que já não sei,

 

daquilo que o pensamento

perde por fora e o persegue

como uma obsessão do vento,

um dia que nunca chegue.

 

Por último, este profundo

nada saber a respeito;

ser só um gesso imperfeito,

um tonto inseto sem mundo

 

a esvoaçar em torno a um centro

(qualquer centro, desde que o haja) —

esta comédia, por dentro,

esta lama que me ultraja,

 

este estar só, num caminho

(não haver outro), este rosto

que me surgiu num agosto,

este ferrão, este espinho.

 

 

 

CANÇÃO

 

Meu poema fracassado,

minha mente vazia.

E chega a noite agreste,

atropelando o dia.

 

Muito fiz e tentei,

sem nada terminar:

o ouro que persegui

não era de encontrar.

 

Meu tédio, meu trabalho,

minha ambição de coisa;

meu tropeço, meu grito,

meu rubi, minha rosa —

 

meu pensamento enorme

de atingir a fronteira,

que o dia alimentava,

sem corpo e sem maneira;

 

tudo isso se desmente,

quando, chegado o escuro,

desce o manto do sono

sobre esforço e futuro:

 

e dormir se entrelaça

às promessas da ação,

consumindo em seu fogo

(branco!) a exausta intenção.

 

.........................................

 

 

Meu poema fracassado,

minha mente vazia.

Vem a noite e devasta

a plantação do dia.

 

(In Conversa de espantalhos)

 

 

 

ESTA NOITE

 

Esta noite, em meu sonho (a multidão

ovacionava o rei; um voo de ave

em movimento esdrúxulo; o conclave

dos cardeais de abril e seu jargão),

 

eu estava desperto, e minha mão

procurava no escuro a obscura chave

que abrisse a porta, resolvesse o enclave

(mesmo que não houvesse solução) —

 

e eu era outro, sem sê-lo, nem melhor,

nem eu mesmo, mas outro, mas Alguém,

num janeiro, entre os hunos — e uma flor

 

na lapela do equívoco (que importa?). —

Esta noite, em meu sonho, como quem

se esquiva ou atravessa alguma porta.

 

(In Conversa de espantalhos)

 

 

 

INTIMAÇÃO

 

De girar e oscilar entre penhascos

de não saber o instante de parar,

de buscar solução na chuva e no ar,

e não haver um sol para os teus ascos;

 

de procurar Jerusaléns, Damascos,

uma velha Bizâncio à beira-mar,

e o que mais haja para procurar:

uma pista, um rumor, rastros de cascos;

 

de ter diante de ti teu duplo cego —

teu irmão, teu igual, teu inimigo,

e mendigar um trapo de sossego

 

onde só existe confusão, perigo

(e essa raiva do esforço que te invade) —

tu te tornas amargo por bondade.

 

(In Qualquer um)

 

 

 

ELEGIA BREVÍSSIMA

 

Uma vez traído

outubro

entregue aos ventos da

derrelição.

 

In Lâmina (e outros poemas) - 83 kb

 

 

 

AO NÍVEL DO CHÃO

 

Sempre retornamos

ao nível do chão

 

Não importa a extensão do voo

não importa a altura atingida

se comparada com a precariedade das asas

Não importa que se tenha ultrapassado um limite

 

Sempre retornamos

ao nível do chão

ao nível do chão do que é o chão

por entre as pedras e os galhos secos e as folhas secas

do chão

no chão

que dá a medida (ponto de partida

ponto de chegada) de tudo quanto

somos capazes de arder:

 

que dá a medida da ultrapassagem

do fogo que somos capazes de arder

 

Sempre retornamos

ao nível do chão.

 

In Lâmina (e outros poemas) - 83 kb

 

 

 

 

AO PRÍNCIPE DE TODOS OS LEITÕES

 

O que é a morte

para ti,

cavaleiro,

senão

um motivo a mais,

um trapézio a mais

para ti

que vais

de poleiro

em poleiro?

 

O que é, senão

um trapézio a mais

para ti

que tens

alma de artista,

corpo de

trapezista?

Senão

um salto a

mais

no ar

onde toda a graça,

toda a beleza

está

em apenas

saltar?

 

(In Qualquer um)

 

 

 

TUDO ERA SONHO

 

Tudo era sonho no começo...

Tudo era sonho?

(A sombra do sonho se estendeu

sobre o deserto.)

Tudo era duplicação

no espaço da claridade: a própria claridade

uma ilusão da luz a jorrar

sobre a nitidez inútil das horas.

 

 

 

APROPRIADO PARA UM DIA DE CHUVA

 

Com um olho

de quem não dormiu o suficiente

e há de se sentir insuficiente

 

(e há de se sentir estrangeiro

até mesmo

na casa do ser) —

 

penso: a questão do ser

não pode ser solucionada

com barbitúricos.

 

Não pode ser sequer mencionada,

nem mesmo depois

de uma boa noite de sono:

 

porque, depois de uma boa noite

de sono, tudo o que vem,

tudo o que a manhã nos devolve

 

é o dia que se nos devolve:

suas asas, seu anjo,

suas agonias domésticas

 

(seu inverossímil enredo).

Não pode ser, porque

é a questão do ser:

 

e a questão do ser

não é senão a própria questão do ser —

este estar aqui, a dizer

 

isto, a girar

e a responder a uma pergunta

que não sei sequer formular.

 

(In Qualquer um)

 

 

 

SOMENTE O QUE É IRREAL

 

Somente o que é irreal devia interessar-nos,

o que não tem poder de conformar o dia:

o que não tem contorno e cor na luz vazia —

e existe apenas no indeciso, a dissipar-nos.

 

Somente o que não vem do sol que nos esfria,

que, exato, nos impõe seu jugo, a dispersar-nos,

devia — na intenção — ter o dom de elevar-nos

àquele céu que não existe, mas nos guia.

 

O que não tem sabor de ser na claridade

e à noite nos assalta, entre as sombras que vêm

brincar ao nosso lado — ermas de imensidade:

 

o que na confusão do dia é só desdém,

só pensamento que se gasta e que se evade,

como uma porta que se fecha e nos retém.

 

(In Qualquer um)

 

 

 

ABRO ESTE LIVRO

 

Abro este livro, que leio,

pouco profundo na tarde.

Há nele uma chama que arde,

um fogo impulsivo (creio)

 

que, por um nada (pudesse

incendiar o pensamento),

incendiaria — portento —

qualquer ideia que houvesse.

 

(Mas não há ideia nenhuma,

e por isso é que abro o livro:

entre seus sóis me equilibro,

obtuso, à procura de uma.)

 

Abro este livro, que estuda

o meu olhar distraído

no rastro de algum sentido,

de alguma senda que o iluda.

 

Mas pouco nele repousa

meu olho e logo se esquiva:

que ler é esboço e deriva,

e a vida é sempre outra coisa.

 

(In Conversa de espantalhos)

 

 

 

O VENTO GEME LÁ FORA

 

O vento geme lá fora

com um sotaque europeu.

Por dentro a sombra demora,

e há na alma um órfão que chora:

nada é próprio, nada é meu.

 

A noite passa, rangendo

sobre o que é casa e lugar.

E aos poucos vou me esquecendo,

vou como uma água descendo,

até o sono chegar.

 

Na confusão que, no escuro,

o pensamento contém

(a arder, impreciso e obscuro),

confio-me — ermo — ao futuro,

espero a paz de Ninguém.

 

O vento geme lá fora,

a se esgarçar nos beirais.

Pesa uma angústia sobre a hora,

e agora é como se outrora —

e eu mesmo já não sou mais.

 

(In Qualquer um)

 

 

 

UM OLHO

 

I

 

Um olho

baço,

cego,

e nenhum

pensamento

 

na noite opaca.

E estar girando

como uma

folha

seca

 

no vento:

o vento

não é nenhum

pensamento.

Não é

 

senão

o que sopra

lá fora.

(Seu assobio

nos beirais.)

 

Um olho

neutro, nulo —

porém cego,

na noite

fria.

 

 

II

 

Vasto

é o círculo

que a noite traça

ao redor

do olho:

 

e negro

e lento

e impenetrável

por dentro

como um caroço

 

na treva —

como uma

pedra.

E espesso

mais que o

 

pensamento

que tenta

atravessá-lo

na

escuridão.

 

 

 

QUINTAL

Que eu penso nuns ocasos esbraseados,
nuns loureiros acesos no quintal –
e mais, e mais: em pássaros migrados,
de vozes rubras, como num coral,

sobre o meu sonho neutro e musical
que uns arcanjos senis, equivocados,
quiseram consolar, como enviados
de um rei que era senhor de bem e mal –

encontrando estes tons do meu pomar,
aromas e sabores tão suaves
que não souberam como melhorar:

em cores tão acesas, a fremir
entre estações, verões e vôos de aves
que nem arcanjos podem corrigir.




BUSCO

Busco na noite esquisita
algum sentido de estar
no qual minha alma finita
possa absorver-se, parar.

Busco no olho do tornado
que a cada instante me expulsa
(como um mendigo estropiado)
qualquer coisa que não pulsa:

uma ilha de erro e sossego,
um nada de ser assim –
onde haja paz e aconchego,
mesmo que não para mim:

onde pensar seja excesso,
querer não tenha intenção,
e a flecha inclua o arremesso
partida, estanque, no chão.




A ANTERO DE QUENTAL


A morte não nos cura. E, entanto, apaga

certa cor que nos vem de ver e ser.

Como uma chuva lenta, nos alaga —

mitiga a sede inquieta de viver.

 

(Mitiga-a pelo excesso: pelo haver

mais água do que aquela que a alma traga.)

Não soluciona o nó do conhecer,

nem o salva do oceano em que naufraga.

 

Mas — onde nada é claro ou se resolve —

abre na noite funda da incerteza

uma espécie de porta para o aquém:

 

que a alma cruza, no encalço de ninguém,

sem ter sequer, cruzando-a, uma surpresa,

como o negro no negro se dissolve.

 

(In Qualquer um)

 

 

 

CONSCIÊNCIA

 

Dormem bem (é o que dizem)

os que têm a consciência limpa.

Também já tive a consciência limpa,

agora a tenho vazia —

o que não impede que, a cada noite,

eu continue a chafurdar na insônia.

 

Têm um sono de pedra (é o que dizem)

os que respeitam os ditames

da moral e vivem segundo as conveniências

da razão. Mas isso não impede...

Por ora só tenho esta consciência vazia

e, em todas as noites, a insônia.

 

(O dia lá fora é frio e cinzento

e enfarruscado de norte a sul,

com ameaça de chuva:

é inverno, e inverno

em todos os quadrantes.)

 

Dormem como dormem os peixes,

porque têm a consciência tranquila.

Também já a tive tranquila,

agora a tenho vazia,

o que não é nenhuma vantagem.

(O que não impede que, a cada noite, eu me afunde na insônia

e role de encontro

a grandes massas de pensamentos imprestáveis.)

 

Dormem como dormem as pedras,

 

mas isso nada tem a ver com consciência.

 

(In Qualquer um)

 

 

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