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Wassily Kandinsky

 

Vocação

A resposta

Fugir o doido

Muito cedo

Perplexidade

Em agosto

Soneto

Falsa luz

Quintal

Troféu

Para Alberto da Cunha Melo

Canção

Canção serena

Asas

Soneto de um dia qualquer

O afogado

Antecipação

Segredo

Por último

Canção

De um poema de Alexei Bueno

Balanço

Esta noite

Intimação

Elegia brevíssima

Ao nível do chão

O outro poema

Motor

Paisagem

Ao príncipe de todos os leitões

Tudo era sonho

Pássaros

Apropriado para um dia de chuva

Somente o que é irreal

Abro este livro

Por uma fresta da noite

A realidade não é

O vento geme lá fora

A semente

Um olho

A Antero de Quental

Consciência

 

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Frutos

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VOCAÇÃO

 

Não tenho vocação para o fracasso,

e no entanto eis que tudo me conduz:

eis que tudo me força e incita ao passo,

me leva em direção à inútil cruz.

 

Não tenho vocação e nada faço

de contrário à verdade que há na luz;

mais eis que o dia vem com seu baraço,

e me arrasta, e me instiga, e me seduz.

 

Quando tomo a devida providência

(não importa qual seja), precavido,

cioso da diferença e do sentido,

 

eis que a tarde, eis que a noite, eis que o momento,

eis que um fantasma, um pó que vi no vento,

um deslize, uma simples coincidência.

 

 

 

A RESPOSTA

 

Eu, que tenho a noção, eu, que compreendo;

eu, que de cada coisa estou seguro

(a não ser de mim mesmo, que me apreendo

num limiar inerte do futuro);

 

eu, que vou me supondo e me sustendo

como um pássaro cego sobre um muro

e do que não conheço ou não entendo

tiro um saber esplêndido e maduro;

 

eu – que já não procuro – encontro às vezes

no início do que sou uma resposta

à pergunta que faço em minha aposta:

 

que não preenche o vazio que a suscita,

mas permanece lá, constante e aflita,

sujeita a mil senões e a mil reveses.

 

 

 

FUGIR O DOIDO

 

Fugir o doido para longe,

nunca se deixar apreender.

(Encapuzar-se como um monge

sob uma capa de não ser:

 

sob um disfarce de talvez

que não permita revelar

por sob a cor da imediatez

o que lá está sem nunca estar.)

 

Fugir o doido para o centro

do seu desaparecimento,

levando consigo o tesouro

do que foi pasmo e mau agouro,

 

do que a mão jamais segurou,

pois sempre esteve mais além:

irmão do vento que o formou,

irmão da chama que o retém.

 

 

 

MUITO CEDO

 

É muito cedo

para o que quer que seja:

para sair da cama

ou para abrir a porta.

 

É muito cedo para aplicar a inteligência

aos inúteis problemas em que a mente patina;

muito cedo para propor o acordo,

para fazer o truque,

para ensaiar o salto.

 

É muito cedo para começar qualquer coisa,

para amealhar um pecúlio de ideias,

para cavar um poço no escuro,

para cavar uma trincheira no caos

ou para fazer um pacto,

ou para alimentar o cão,

ou para isto e para aquilo.

 

É muito cedo, infinitamente cedo.

 

 

 

PERPLEXIDADE

 

Não é a coisa –

é a ideia da coisa

que te estarrece: a coisa

permanece lá, perfeitamente

equilibrada no seu centro.

 

(Por fora dela circulam os ventos,

a voz, o sonho, a ansiedade do visto,

esse desejo de segurá-la

que te inquieta

e de retê-la entre os teus dedos

por um instante.)

 

Não é a coisa (o que ela é)

que te deixa estupefato:

é a ideia que fazes dela,

assim de pé

sobre uma curva do teu caminho

ou sobre alguma pedra

que resiste à correnteza do rio.

 

A coisa – em si mesma –

(um ovo, por exemplo, uma luva, um chapéu)

permanece lá,

perfeitamente equilibrada

e posta para sempre além do toque

e para sempre além da perplexidade.

 

 

 

EM AGOSTO

 

Acomodar-se às coisas: aceitar

o formato de agosto – o vir do vento,

esta chuva que cai sem se cansar

e a experiência opressiva do ar cinzento.

 

Não forçar os limites, não tentar

ultrapassar a curva do momento;

não querer outra cor, outro lugar,

outro céu, outra fome, outro tormento.

 

Ficar aqui, somente, esclarecido

pela justiça simples do possível,

que torna suave a rosa antes do olvido:

 

cumprindo uma tarefa que convém

e suportando o gume do sensível,

que arde em promessas sob a luz-ninguém.

 

 

 

SONETO

 

A mim que me preocupam borboletas,

que me dão pena as pedras e as asinhas,

que me tiram o sono as avezinhas

de plumagens escassas, incompletas;

 

a mim que me perturbam as discretas

oscilações das águas mais sozinhas

quando as afagam brisas, e as florinhas

que esmagaram as rodas das carretas;

 

a mim me sobressalta este esquisito

estar desperto à beira do infinito,

tendo o céu por consolo, e a luz por fardo.

 

Chega-me ao pensamento, e em minha insônia

cresce e tem o sabor de uma acrimônia,

de um fogo que me esfria e em que não ardo.

 

(In O anjo de amanhã)

 

 

 

FALSA LUZ

 

Que me ignora e não sabe o meu tamanho;

que quer que eu seja simples, comedido,

e caiba numa fresta do sentido,

e não seja tão novo, tão estranho,

 

tão pouco familiar ao dia claro

em que tudo se oferta e se desdobra,

transformando-se em vento, em corpo, em obra –

vencida a opacidade do anteparo.

 

Que não sabe quem Sou no fundo obscuro

do segredo que guardo diurnamente

e minto em meu dizer, honestamente:

 

e me toma por outro, no futuro,

e me explica, com calma adequação,

na falsa luz da falsa explicação.

 

 

 

QUINTAL

 

Que eu penso nuns ocasos esbraseados,

nuns loureiros acesos no quintal –

e mais, e mais: em pássaros migrados,

de vozes rubras, como num coral,

 

sobre o meu sonho neutro e musical

que uns arcanjos senis, equivocados,

quiseram consolar, como enviados

de um rei que era senhor de bem e mal –

 

encontrando estes tons do meu pomar,

aromas e sabores tão suaves

que não souberam como melhorar:

 

em cores tão acesas, a fremir

entre estações, verões e voos de aves

que nem arcanjos podem corrigir.

 

 

 

TROFÉU

 

Foi ao chão meu troféu, mal conquistado

à resistência insípida dos dias.

Varreram-no tufões e ventanias,

até deitá-lo ao solo, destroçado.

 

Era de vidro e brisa, marchetado

de delícias, e tédios, e agonias,

a que, somando-se outras pedrarias,

se acrescentava a luz do meu passado.

 

Quando o vento o venceu sem grande esforço,

pensei que de mim mesmo eu me afastava,

como um peso alijado do meu dorso.

 

Porém em cada esquina eu deparava

com a recordação do que não veio,

acesa numa chama em que não creio.

 

 

 

PARA ALBERTO DA CUNHA MELO

 

Basta que seja deste modo

e que o que chamamos de vida

(presente obscuríssimo, claro,

que se abre apenas na saída

 

e que não adianta tentar

pelo barulho adivinhar),

 

seja como um traje apertado,

feito por número menor,

mas que assim mesmo nos foi dado –

 

cujo aperto só conhecemos

depois que nele nos metemos.

 

16-10-2007

 

 

 

CANÇÃO

 

Coração magoado,

é justo que esperes.

Se foi bom o dia

e te trouxe o fruto

(ou se deu errado) –

não te desesperes.

 

Coração aflito,

que a noite gelou.

Se é espessa de sol,

a manhã, e morna

(e o sonho é finito) –

prepara o teu vôo.

 

Coração aceso

de uma estranha chama.

Bate compassado,

pois o vento é breve;

se, intenso e surpreso,

o esforço te chama,

 

não te desesperes:

bate decidido. –

Na manhã tão lúcida,

tão de primavera,

é justo que esperes,

que faças sentido.

 

 

 

CANÇÃO SERENA

 

De longe, meu pai me acena,

da bruma que mal o oculta.

A sua face é serena,

e o seu aceno me indulta.

 

O esforço pertence ao dia,

que a noite cerra e modera.

(Meu pai tão bem o sabia,

como se o dia o dissera.)

 

Há no seu gesto uma calma

que o vento estende e acrescenta,

roçando à flor da minha alma

numa carícia nevoenta.

 

De pé na margem, escuto

um som que a noite anuncia

e espero só, de olho enxuto,

como meu pai o faria.

 

Quem sou agora? Não sei.

E é noite apenas lá fora. –

E esta canção que inventei

percute em meu sonho agora:

 

parado, sem meta e escopo,

à espera de um ser profundo

que venha encher com seu sopro

toda a ausência que há no mundo

 

 

 

ASAS

 

Que fazer desta cera, destas asas,

deste desejo de multiplicar

que me leva ao perigo, a me lançar

num vôo temerário sobre as casas?

 

Devo esquecer o prêmio, devo arder

para aquém das feridas da ambição,

saciado só de que haja o baixo e o chão,

onde é mais fácil desistir de ser?

 

Devo me contentar com o que me chega

do dia como tal – azul e duro,

sem vertigens do sol para quem nega;

 

para quem não procura senão isto,

uma nesga de incerto e de imprevisto

que se oculte nas dobras do futuro?

 

 

 

SONETO DE UM DIA QUALQUER

 

Vagabundo de sol e de sentido,

de não ser necessário mais buscar,

porque qualquer caminho há de levar

ao que tenho tramado e pretendido

 

(sem uma comoção, sem um gemido,

na perfeição exata deste estar

à deriva no que não chega a mar,

no que não leva ao porto prometido) –

 

basta-me ser inverno, e haver a chuva

a bater no telhado, e o dia escuro,

de um ócio que me quadra como luva:

 

e este não progredir para um final,

que é todo o meu domínio e o meu fanal,

todo o espanto que espero do futuro.

 

 

 

O AFOGADO

 

Um afogado quer

agarrar-se a uma palavra

para não submergir.

 

Como pode

uma palavra – osso do nada –

salvar alguém?

 

Um afogado quer

nadar por cima dos dias,

nadar por cima

 

de suas esperanças

(nadar por cima do silêncio)

agarrando-se a uma palavra

 

para não afundar (?).

..................................................

E no entanto afundar o envolve

por todos os lados.

 

 

 

ANTECIPAÇÃO

 

Amas-me fora do sonho,

amas-me antes de eu chegar,

como quem tem um motivo,

como quem quer começar.

 

Amas-me no adiantamento

que em todo amar se contém:

como quem observa ao longe

um veleiro que ainda vem –

 

como quem salta no escuro

à espera de que haja um chão

onde o seu salto repouse

depois do risco e da ação

 

(depois da inútil vertigem

em que todo risco vai

roçando o corpo de um neutro

vazio de ar em que cai).

 

Se me amas como quem bebe

uma anterior água vã

que a noite traz, mas não mata

a sede que há na manhã,

 

é porque tudo antecipas

num lance por ocorrer,

certa da glória e do prêmio

que os dados hão de prover.

 

 

 

SEGREDO

 

A vida é apenas segredo.

Não há muito que saber.

Ninguém precisa saber

o que contém teu segredo.

 

É só um dizer de menos,

um nada mostrar de teu,

pois no que mostras de teu

já o mostras pálido e menos.

 

(É só um não revelar

do enigma que jaz no fundo,

e nunca atingir o fundo

no esforço de revelar.)

 

A vida é coisa e segredo

para o teu pouco saber:

ser o bastante saber

que há vida, coisa e segredo.

 

 

 

POR ÚLTIMO

 

Por último, este fantasma,

com que eu não tinha contado:

seu vulto esquerdo, parado

(tal mecanismo me pasma!)

 

à porta do que intentei,

do que pensei começar

e se dissolveu no mar

daquilo que já não sei,

 

daquilo que o pensamento

perde por fora e o persegue

como uma obsessão do vento,

um dia que nunca chegue.

 

Por último, este profundo

nada saber a respeito;

ser só um gesso imperfeito,

um tonto inseto sem mundo

 

a esvoaçar em torno a um centro

(qualquer centro, desde que o haja) –

esta comédia, por dentro,

esta lama que me ultraja,

 

este estar só, num caminho

(não haver outro), este rosto

que me surgiu num agosto,

este ferrão, este espinho.

 

 

 

CANÇÃO

 

Meu poema fracassado,

minha mente vazia.

E chega a noite agreste,

atropelando o dia.

 

Muito fiz e tentei,

sem nada terminar:

o ouro que persegui

não era de encontrar.

 

Meu tédio, meu trabalho,

minha ambição de coisa;

meu tropeço, meu grito,

meu rubi, minha rosa –

 

meu pensamento enorme

de atingir a fronteira,

que o dia alimentava,

sem corpo e sem maneira;

 

tudo isso se desmente,

quando, chegado o escuro,

desce o manto do sono

sobre esforço e futuro:

 

e dormir se entrelaça

às promessas da ação,

consumindo em seu fogo

(branco!) a exausta intenção.

 

.........................................

 

 

Meu poema fracassado,

minha mente vazia.

Vem a noite e devasta

a plantação do dia.

 

 

 

DE UM POEMA DE ALEXEI BUENO

 

Onde acaba o dizível,

onde as palavras falham,

ouve-se o mar tangível:

 

barcos, cheios, encalham.

E elas, no esquivo pulso

das ondas, se embaralham.

 

E além, além, convulso

desdobra-se o horizonte,

além de todo impulso.

 

Mas, se o teu olho o afronte,

cega-o o visto, e o mar vence-o;

e não há fim ou fonte.

 

De lá vem o silêncio.

 

 

 

BALANÇO

 

Para cima era tudo. No balanço

a vida de si mesma se esquecia

e, quanto mais se alçava, mais subia,

mais se entregava ao impulso do avanço,

 

mais própria se tornava, mais do dia,

capturada no fluxo do remanso,

como um inseto em fogo de alegria,

sem tempo, sem memória, sem descanso.

 

Quanto mais se esforçava em ser do vento,

em dissolver-se toda em movimento

(vazia de destino e de surpresa),

 

mais em corpo de coisa se exaltava,

e ser alto – em perder-se – compensava

nosso existir rasteiro e sem beleza.

 

 

 

ESTA NOITE

 

Esta noite, em meu sonho (a multidão

ovacionava o rei; um vôo de ave

em movimento esdrúxulo; o conclave

dos cardeais de abril e seu jargão),

 

eu estava desperto, e minha mão

procurava no escuro a obscura chave

que abrisse a porta, resolvesse o enclave

(mesmo que não houvesse solução) –

 

e eu era outro, sem sê-lo, nem melhor,

nem eu mesmo, mas outro, mas Alguém,

num janeiro, entre os hunos – e uma flor

 

na lapela do equívoco (que importa?). –

Esta noite, em meu sonho, como quem

se esquiva ou atravessa alguma porta.

 

 

 

INTIMAÇÃO

 

De girar e oscilar entre penhascos

de não saber o instante de parar,

de buscar solução na chuva e no ar,

e não haver um sol para os teus ascos;

 

de procurar Jerusaléns, Damascos,

uma velha Bizâncio à beira-mar,

e o que mais haja para procurar:

uma pista, um rumor, rastros de cascos;

 

de ter diante de ti teu duplo cego –

teu irmão, teu igual, teu inimigo,

e mendigar um trapo de sossego

 

onde só existe confusão, perigo

(e essa raiva do esforço que te invade) –

tu te tornas amargo por bondade.

 

 

 

ELEGIA BREVÍSSIMA

 

Uma vez traído

outubro

entregue aos ventos da

derrelição.

 

In Lâmina (e outros poemas) - 83 kb

 

 

 

AO NÍVEL DO CHÃO

 

Sempre retornamos

ao nível do chão

 

Não importa a extensão do vôo

não importa a altura atingida

se comparada com a precariedade das asas

Não importa que se tenha ultrapassado um limite

 

Sempre retornamos

ao nível do chão

ao nível do chão do que é o chão

por entre as pedras e os galhos secos e as folhas secas

do chão

no chão

que dá a medida (ponto de partida

ponto de chegada) de tudo quanto

somos capazes de arder:

 

que dá a medida da ultrapassagem

do fogo que somos capazes de arder

 

Sempre retornamos

ao nível do chão.

 

In Lâmina (e outros poemas) - 83 kb

 

 

 

O OUTRO POEMA

 

a Mauro Mendes

 

Devo escrever um poema

que fale desse dever;

que, além do que possa ser,

seja também um emblema.

(Mas o poema que escrevo

não é o poema que devo.)

 

Devo escrever uma frase

que diga tudo o que espero:

que seja tudo o que quero,

sem nódoa alguma que a atrase.

(Mas frase alguma que escrevo

é aquela frase que devo.)

 

Devo escrever esse verso

que diga tudo o que penso –

que não me deixe suspenso

entre ser eu e diverso.

(Mas este verso que escrevo

não é aquele que devo.)

 

Devo escrever um poema

que fale disso e do mundo,

que seja exato e profundo

como convém ao seu tema.

(Mas no poema que escrevo

não está o poema que devo.)

 

 

 

MOTOR

 

Quieto. Deixa o motor

da noite te impulsionar.

Não seja apenas ardor

o que tu tens a levar.

 

Deixa também que o que for

dormir e descontinuar

te leve sobre o incolor

do sonho – impreciso mar.

 

Não tenhas fardo maior

do que, para transportar,

tua mágoa e teu horror,

 

que vêm de tempo e lugar. –

E seja a noite o valor

que andaste, cego, a implorar.

 

 

 

PAISAGEM

 

No tumulto do dia estou desperto,

a olhar esta paisagem, que me vê.

(Sou aquele que sonha no deserto,

aquele que constata mas não crê.)

 

Quando me determino e avanço, certo

da miragem que em mim se tornou fé,

em direção à flor do dia aberto,

encontro a confusão que a luz me dê.

 

E paro, entre perplexo, entre intrigado

de meu próprio avançar, que não contém

o sentido do norte procurado

 

e progride na treva que o retém. –

E olho em volta essa coisa erma e vazia

a que chamei paisagem, flor e dia.

 

 

 

AO PRÍNCIPE DE TODOS OS LEITÕES

 

O que é a morte

para ti,

cavaleiro,

senão

um motivo a mais,

um trapézio a mais

para ti

que vais

de poleiro

em poleiro?

 

O que é, senão

um trapézio a mais

para ti

que tens

alma de artista,

corpo de

trapezista?

Senão

um salto a

mais

no ar

onde toda a graça,

toda a beleza

está

em apenas

saltar?

 

 

 

TUDO ERA SONHO

 

Tudo era sonho no começo...

Tudo era sonho?

(A sombra do sonho se estendeu

sobre o deserto.)

Tudo era duplicação

no espaço da claridade: a própria claridade

uma ilusão da luz a jorrar

sobre a nitidez inútil das horas.

 

 

 

PÁSSAROS

 

Lá fora os pássaros já cantam

sua algazarra cotidiana,

com voz aguda de estribilho

que a flor do dia ilude, engana.

 

Como se a noite não tivesse

pousado neles seu escuro

(trancado neles sua porta

que vem abrir o dia puro);

 

como se a noite não tivesse

plantado neles o seu milho

(lançado neles seu esterco

que agora é pólen no estribilho –

 

que agora é trino na algazarra

e confusão na claridade) –

cantam, com voz de quem não sabe

(que o sol acende, a luz invade),

 

sem nada neles que recorde

(na flor do dia a refulgir)

rastro ou indício da erma noite

que os inundou e os fez dormir.

 

 

 

APROPRIADO PARA UM DIA DE CHUVA

 

Com um olho

de quem não dormiu o suficiente

e há de se sentir insuficiente

 

(e há de se sentir estrangeiro

até mesmo

na casa do ser) –

 

penso: a questão do ser

não pode ser solucionada

com barbitúricos.

 

Não pode ser sequer mencionada,

nem mesmo depois

de uma boa noite de sono:

 

porque, depois de uma boa noite

de sono, tudo o que vem,

tudo o que a manhã nos devolve

 

é o dia que se nos devolve:

suas asas, seu anjo,

suas agonias domésticas

 

(seu inverossímil enredo).

Não pode ser, porque

é a questão do ser:

 

e a questão do ser

não é senão a própria questão do ser –

este estar aqui, a dizer

 

isto, a girar

e a responder a uma pergunta

que não sei sequer formular.

 

 

 

SOMENTE O QUE É IRREAL

 

Somente o que é irreal devia interessar-nos,

o que não tem poder de conformar o dia:

o que não tem contorno e cor na luz vazia –

e existe apenas no indeciso, a dissipar-nos.

 

Somente o que não vem do sol que nos esfria,

que, exato, nos impõe seu jugo, a dispersar-nos,

devia – na intenção – ter o dom de elevar-nos

àquele céu que não existe, mas nos guia.

 

O que não tem sabor de ser na claridade

e à noite nos assalta, entre as sombras que vêm

brincar ao nosso lado – ermas de imensidade:

 

o que na confusão do dia é só desdém,

só pensamento que se gasta e que se evade,

como uma porta que se fecha e nos retém.

 

 

 

ABRO ESTE LIVRO

 

Abro este livro, que leio,

pouco profundo na tarde.

Há nele uma chama que arde,

um fogo impulsivo (creio)

 

que, por um nada (pudesse

incendiar o pensamento),

incendiaria – portento –

qualquer idéia que houvesse.

 

(Mas não há idéia nenhuma,

e por isso é que abro o livro:

entre seus sóis me equilibro,

obtuso, à procura de uma.)

 

Abro este livro, que estuda

o meu olhar distraído

no rastro de algum sentido,

de alguma senda que o iluda.

 

Mas pouco nele repousa

meu olho e logo se esquiva:

que ler é esboço e deriva,

e a vida é sempre outra coisa.

 

 

 

POR UMA FRESTA DA NOITE

 

Há o impossível.

Há o que não podemos atingir,

as margens que não podemos atingir,

por mais que nos debatamos à superfície,

por mais hábeis que sejamos em nadar.

 

Há o opaco, o duro, o difícil,

o inapreensível,

a corda que não se pode romper,

o peso que não se pode transportar.

 

Há o inalcançável,

o que só se reflete no olho –

o pássaro nas alturas,

flecha,

distância,

cadeia de montanhas

que não se pode transpor.

 

 

 

A REALIDADE NÃO É

 

A realidade não é

um estado de espírito.

Não é

o que se esconde por trás

de um estado de espírito.

Não é

sequer

o que não é

um estado de espírito.

 

A realidade,

seja o que for

(seja aqui

ou no planeta Marte,

seja no mar

ou num trem a vapor),

é só aquilo de que

não se pode

dispor.

 

 

 

O VENTO GEME LÁ FORA

 

O vento geme lá fora

com um sotaque europeu.

Por dentro a sombra demora,

e há na alma um órfão que chora:

nada é próprio, nada é meu.

 

A noite passa, rangendo

sobre o que é casa e lugar.

E aos poucos vou me esquecendo,

vou como uma água descendo,

até o sono chegar.

 

Na confusão que, no escuro,

o pensamento contém

(a arder, impreciso e obscuro),

confio-me – ermo – ao futuro,

espero a paz de Ninguém.

 

O vento geme lá fora,

a se esgarçar nos beirais.

Pesa uma angústia sobre a hora,

e agora é como se outrora –

e eu mesmo já não sou mais.

 

 

 

A SEMENTE

 

Fui plantar outro dia uma semente

(que semente era aquela eu não sei bem).

Nasceu-me, em vez de pêra, uma serpente –

que não me disse o que era o mal, o bem.

 

Com seu olho deserto, que não tem

umidade nenhuma e só pressente

para além da aparência o que esta tem,

e a luz não esclarece nem desmente,

 

ficou a me observar, como se eu fosse

não o plantador do arbusto em que floriu

sua pele de um brilho esquivo e doce:

 

mas o árduo tentador, cuja brandura

baniu para um inferno de amargura

uma Eva nua que jamais sorriu.

 

 

 

UM OLHO

 

I

 

Um olho

baço,

cego,

e nenhum

pensamento

 

na noite opaca.

E estar girando

como uma

folha

seca

 

no vento:

o vento

não é nenhum

pensamento.

Não é

 

senão

o que sopra

lá fora.

(Seu assobio

nos beirais.)

 

Um olho

neutro, nulo –

porém cego,

na noite

fria.

 

 

II

 

Vasto

é o círculo

que a noite traça

ao redor

do olho:

 

e negro

e lento

e impenetrável

por dentro

como um caroço

 

na treva –

como uma

pedra.

E espesso

mais que o

 

pensamento

que tenta

atravessá-lo

na

escuridão.

 

 

 

A ANTERO DE QUENTAL

 

A morte não nos cura. E, entanto, apaga

certa cor que nos vem de ver e ser.

Como uma chuva lenta, nos alaga –

mitiga a sede inquieta de viver.

 

(Mitiga-a pelo excesso: pelo haver

mais água do que aquela que a alma traga.)

Não soluciona o nó do conhecer,

nem o salva do oceano em que naufraga.

 

Mas – onde nada é claro ou se resolve –

abre na noite funda da incerteza

uma espécie de porta para o aquém:

 

que a alma cruza, no encalço de ninguém,

sem ter sequer, cruzando-a, uma surpresa,

como o negro no negro se dissolve.

 

 

 

CONSCIÊNCIA

 

Dormem bem (é o que dizem)

os que têm a consciência limpa.

Também já tive a consciência limpa,

agora a tenho vazia –

o que não impede que, a cada noite,

eu continue a chafurdar na insônia.

 

Têm um sono de pedra (é o que dizem)

os que respeitam os ditames

da moral e vivem segundo as conveniências

da razão. Mas isso não impede...

Por ora só tenho esta consciência vazia

e, em todas as noites, a insônia.

 

(O dia lá fora é frio e cinzento

e enfarruscado de norte a sul,

com ameaça de chuva:

é inverno, e inverno

em todos os quadrantes.)

 

Dormem como dormem os peixes,

porque têm a consciência tranqüila.

Também já a tive tranqüila,

agora a tenho vazia,

o que não é nenhuma vantagem.

(O que não impede que, a cada noite, eu me afunde na insônia

e role de encontro

a grandes massas de pensamentos imprestáveis.)

 

Dormem como dormem as pedras,

 

mas isso nada tem a ver com consciência.

 

 

(Poemas de Renato Suttana)

 

 

 

Outros poemas em Póstumos - escritos sobre literatura e cultura (html e pdf) e Adendos e espinhos (pdf, 417 kb)

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