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Seis sonetos de Petrarca

 

 

III

 

Se a minha vida do áspero tormento

E tanto afã puder se defender,

Que por força da idade eu chegue a ver

Da luz do vosso olhar o embaciamento,

 

E o áureo cabelo se tornar de argento,

E os verdes véus e adornos desprender,

E o rosto, que eu adoro, empalecer,

Que em lamentar me faz medroso e lento,

 

E tanta audácia há de me dar o Amor,

Que vos direi dos martírios que guardo,

Dos anos, dias, horas o amargor.

 

Se o tempo é contra este querer em que ardo,

Que não o seja tal que à minha dor

Negue o socorro de um suspiro tardo.

 

 

 

VIII

 

Ó Pai, depois dos dias ociosos,

Depois das noites a velar em vão,

Com este anseio no meu coração,

Mirando os atos por meu mal viçosos,

 

Praza-te, ó lume, que a outros mais formosos

Caminhos e a mais bela ocupação

Eu me volte, fugindo à dura ação

Do inimigo e aos seus meios cavilosos.

 

Dez anos mais um hoje faz, Senhor,

Que me vi submetido à tirania

Que sobre o mais sujeito é mais feroz.

 

Piedade tem do meu não digno ardor,

Conduz meu pensamento a melhor via,

Lembra-o de que estiveste numa cruz.

 

 

 

XXXII

 

Quanto mais perto estou do dia extremo

Que o sofrimento humano torna breve,

Mais vejo o tempo andar veloz e leve

E o que dele esperar falaz e menos.

 

E a mim me digo: Pouco ainda andaremos

De amor falando, até que como neve

Se dissolva este encargo que a alma teve,

Duro e pesado, e a paz então veremos:

 

Pois que nele cairá essa esperança

Que nos fez delirar tão longamente

E o riso, e o pranto, e o medo, e também a ira;

 

E veremos o quão freqüentemente

Por coisas dúbias o ânimo se cansa

E que não raro é em vão que se suspira.

 

 

 

CLXXXIX

 

Vai o meu barco, cheio só de olvido,

À meia noite, ao árduo mar, no inverno,

Entre Cila e Caríbdis; e ao governo

Vê-se o senhor, melhor: meu inimigo.

 

A cada remo um pensar atrevido

Parece rir à vaga e ao próprio averno:

Rompe as velas um vento úmido, eterno

De esperanças, desejos e gemidos.

 

Chuva de pranto, névoa de rancor

Afrouxa e banha os cabos extenuados,

De ignorância trançados e de error.

 

Foge-me o doce lume costumeiro,

Razão e engenho da onda são tragados;

E eis que do porto já me desespero.

 

 

 

CXC

 

Uma cândida cerva me surgiu

sobre o verde gramado – os cornos de ouro –,

entre dois riachos, à sombra de um louro,

na estação fria, mal o sol se abriu.

 

Tão doce em mim tal vista se imprimiu,

que por segui-la toda lida ignoro,

como o avarento em busca de um tesouro,

tanto assim meu tormento se evadiu.

 

“Ninguém ouse tocar-me” – escrito havia

no colo, entre topázios e diamantes,

“que eu fosse livre César ordenou”.

 

Já o claro sol chegava ao meio-dia,

quando eu, de olhos absortos, ignorantes,

escorreguei para a água, e ela escapou.

 

 

 

CCXXIV

 

Ó minha alcova, que já foste um porto

Às tempestades que cruzei diurnas,

Fonte agora de lágrimas noturnas,

Que no dia, por pejo, ocultas porto;

 

Ó leito, onde encontrei paz e conforto

De tanta mágoa, que dolentes urnas

Sobre ti verte o Amor com mãos ebúrneas,

Só para mim crueza e desconforto!

 

Porém do meu retiro e do repouso

Não fujo, mas de mim e do pensar,

Que tanta vez segui num devaneio;

 

E em meio ao vulgo adverso e inamistoso

(Quem diria?) refúgio vou buscar,

Tal é de ficar só o meu receio.

 

 

(Traduções de Renato Suttana)

 

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