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Bem-vindo à homepage de Renato Suttana.

Laurence Stephen Lowry, Incidente na rua

 

 

Ninharias

 

(satíricos e outras anotações marginais)

 

(Renato Suttana)

 

Golpista

Decorativo (II)

Decorativo (I)

O pássaro

Vazão

Atraso

Soneto tarjado

Urubus

O mercador

Cruzada

O pitbull do governador

Penicaço

Procissão

No bonde

O banho

A explicação

Pregão

A torneira

O Príncipe e a ignorância

De black blocs e greyhounds

Soneto acróstico

Instantâneos da marcha

Em fogo brando

A Presidenta

Glosa a mote

A lavação

Causa secreta

Lanche no Tribunal

Menos eu!

Juramento

Festa na República

Glosa a mote

Na República do Joaquim

Acróstico da República

Novatos e velhacos

Soneto (quase) desperto

Soneto parnasiano-blablarino

Soneto majestático

O incômodo

Soneto em acróstico

Canção com o parafuso a menos

As virgens ilhas

Seis sonetos de ocasião

A polêmica Tolentino-Campos revisitada (com um adendo)

O currículo do poeta

Abdômen tipo exportação

O partido

Comentário a uma notícia

Dar e não dar

A um blogueiro da Internet

Bairro nobre

Convite para o enforcamento

De manchetes e erratas

Jingles de campanha

À margem da atual situação política brasileira

Desconstruindo o deputado

 


  Estes e outros poemas estão disponíveis para leitura no blog A Festa de Tartufo




GOLPISTA


Dom Judas, para ser enérgico,
para mostrar que é homem sério,
um dia declarou, colérico,
diante de todo o ministério
(porque também tinha aprendido
na vida a lidar com bandido),
que não toleraria aquilo:
que não suportaria ouvi-lo.

Disse que trataria à altura
toda e qualquer provocação
de gente que, com má tenção,
denegrisse a sua figura
(de homem compenetrado, sério,
que comandava um ministério),
chamando-o de golpista, insulto
que não lhe merecia indulto.

Falou assim, com seu ar sério
e sua verve mais enérgica;
e então instruiu o ministério
a que desse resposta alérgica
(franzindo o cenho decidido
de quem sabe tratar bandido)
e a não deixar passar em branco
qualquer provocação ou tranco.

“Dizei” — disse, quase apoplético —
“a quem vos chame de golpistas
que golpista é quem, por patético,
o pôs no mundo; e vigaristas
(pois, com vileza e má tenção,
desprezam a constituição)
são os que aplicam apelidos:
golpistas rudes, desabridos.”

Assim falou naquele dia,
ensaiando o seu ar mais sério,
alçado afinal à chefia
de um reluzente ministério
(e diante da televisão
que lá fora por convicção);
e o seu aspecto era colérico,
e o seu gesto era de homem ético.

E até não economizou
nenhuma letra, e caprichava
na sintaxe, que embonecou
e que a mesóclise coroava
(cereja desse colorido
bolo — dir-se-á — sem partido),
a exibir o seu ar mais sério
diante de todo o ministério.

E desde então, a cada vez
que alguém o chama de golpista,
retruca, com intrepidez,
bem na cara do vigarista
(dizendo-o ignorante, anormal,
farsante, inconstitucional)
e desfia, conforme ouvi,
esta léria que escrevo aqui:

“Que golpistas são vosso pai,
vosso avô, vosso tio e irmão;
que maior golpista é a que vai
convosco ao altar ou, senão
(replica, decidido e enérgico,
chegando quase ao apoplético) —
o que me parece mais sério
e não contém nenhum mistério:

neste mundo que descaminha,
vossa avó ou vossa mãezinha!”


2-9-2016




DECORATIVO (II)


Já foi bem mais decorativo,
até o ponto de usar correio
para mandar à presidenta
o seu protesto putativo
(serpente sem cabeça e meio),
dizendo exatamente aquilo
que o tal protesto contestava:
que era mais que decorativo
(e a atitude, apenas, bastava,
entre tantas, a desmenti-lo).

Nem precisou aplicar nisso
toda a força do seu anseio:
que o protesto, levado ao vento,
como um termo de compromisso,
deixou à mostra o seu recheio.
Porém quis mais: gravou mensagem,
como para acrescer o efeito,
que o noticiário, submisso,
vazou num átimo, perfeito.
(Vá saber por que malandragem!)

Por certo ao fim desse arranheiro
só não explicou a que veio,
até porque, já de esquisito,
acabou ficando mais feio
(se é que o efeito era verdadeiro).
E agora mostra a quem aceite
a tarefa de compreendê-lo
que de isento só tinha o cheiro —
pois era bem mais um martelo
ou um revólver esse enfeite.

12-4-2016




DECORATIVO (I)


Mandou cartinha à presidenta
em que se queixa, lamurioso,
dizendo que já não aguenta
esse papel vexaminoso
de andar assim pelo Planalto,
numa vacância sem sentido,
como um desenho ou um motivo
que a gente aplica num tecido
sem um critério definido:
ou um bibelô posto no alto,
decorativo.

A presidenta, mulher séria,
provavelmente compreendeu,
mas frente à inusitada léria
não disse o pensamento seu.
E convenhamos: esse assunto
com que o povo quer se entreter
de assombração, de morto-vivo,
para quem tem mais que fazer,
um sentido só pode ter
(na composição do conjunto)
decorativo.

A vida passa, felizmente,
sem dar preferência a ninguém.
Desenvolve-se e, consequente,
ao fim do teatro a razão vem:
quem governa é quem foi eleito.
E assim, no verão do Distrito,
vai desbotando esse adesivo:
já cinzento e bem esquisito,
com seu matiz confuso e aflito.
E vai perdendo o seu efeito
decorativo.


16-12-2015



 

O PÁSSARO

Você deve estar se perguntando: como uma ave tão grande saiu de uma janelinha de primeira instância?
(Leitor do Conversa Afiada)


Um pássaro tão grande e tão vistoso

não cabe certamente em qualquer ninho:

quem o vê tão bicudo e assim ruidoso

até supõe que se incubou sozinho;


mas foi gerado por um buraquinho —

onde, apesar do canto cavernoso,

teve infância qualquer de passarinho,

antes de ser o passarão plumoso.


Agora garganteia. — De um só furo

sai às vezes, num jato, o todo ovante

do mundo, e sai às vezes o futuro.


(E, havendo empuxo, é certo: essa ave eclode,

vai além dos limites do que pode,

vai de pintinho a galo num instante.)


25-11-2015




VAZÃO

Coisa que, ao que parece, não interessa muito ao promotor-vazador...
(Fernando Brito)


Porque lhes falta o senso de limite
Requerido por sua profissão,
Ou lhes falta o equilíbrio que a razão,
Mais que o decoro, apenas nos permite;
Ou porque falta o senso de justiça
(Tantas vezes alheio ao tribunal)
Ou o humilde pudor da movediça
Regra, que assim se esmera em fazer mal;
Não lhes sobra afinal, para o exercício
E para o entender justo, a parcimônia
Indispensável ao seu alto ofício —
Restando-lhes o estoque de acrimônia
A que se dá vazão desta maneira:
Só comparável, mesmo, à da torneira.

24-10-2015



ATRASO

Sinal do despudor da imprensa, um colunista da Veja escreveu que espera que Cunha derrube Dilma antes de ser preso.
(Paulo Nogueira)


Que a polícia não chegue tão depressa,
com o apito e as algemas; que haja ao menos
tempo para fazer o que interessa
e destilar uns últimos venenos.

Com um traquejo e liberdade plenos,
que o réu por vir (nossa final promessa)
ainda possa orquestrar, nesses terrenos,
o samba da insurgência, que atravessa.

Que a polícia se atrase um minutinho,
e um minutinho seja suficiente
para incendiar por dentro aquele ninho.

Queira o bom Deus que a lei, sempre emperrada,
sempre lenta e capenga, não invente
de vir correndo agora, em disparada!

3-10-2015



SONETO TARJADO

... manejado entreguista...
(Lido no Conversa Afiada
)

Puseram tarja preta em ████████,
que, depois da fatal Privataria,
nada tem a esconder. Mas quem diria?
É que o excesso de zelo às vezes erra.

Eis outro caso em que o silêncio berra
bem mais que a tribunícia gritaria.
E, lé com cré juntando, a vaca é fria:
não se vê Zé como esse ████████.

Dar ao gringo o pré-sal por ninharia?
Travar de novo a “manejada” guerra
da “Petrobrax” – que até o capeta adia?

Boa lição tudo isto, amigo, encerra:
que, enquanto a opinião dorme ou fantasia,
por trás da tarja (lê-se) ████████!

24-7-2017




URUBUS

“Não tenho prova cabal contra ele — mas vou condená-lo, porque a literatura jurídica me permite.”
(Ministra Rosa Weber, do STF)

“O abutre sobrevoa o Pré-Sal”
(Lido no Facebook)


Porque a literatura me permite,
evoco aquele verso sem consorte
em que, desarvorado, o poeta admite
que um urubu pousou na sua sorte.

Depois que se atingiu certo limite
outra coisa não há que mais importe
que reparar que, quando se demite
o escrúpulo, a verdade vira esporte.

Outrora voavam alto, ameaçadores,
perscrutando os quintais e os arredores,
ou descansando, às vezes, nos telhados.

Hoje, porque ninguém lhes cortou a asa,
mais atrevidos — vê-se — e mais ousados,
entram e vêm pousar dentro da Casa.

3-7-2015




O MERCADOR

Porque você não consegue convencer a população de que ela vai perder o direito de votar no presidente da República. Então, se a gente construir uma figura em que ela continua votando no presidente, você pode ter um parlamentarismo.
(Deputado Eduardo Cunha)


Convencer o eleitor a que não vote
é mais difícil do que convencê-lo
de que o meu novo implante de cabelo
me deixa mais bonito (outro calote).

Para vender aquela ideia nova,
transformarei em shopping o Congresso,
onde a marcha fatal do retrocesso
se apregoará sem argumento ou prova.

(Tal como a Lava Jato em Curitiba.)
Montarei lá, sem que o pudor me iniba,
uma tenda de sólida armação

onde o fisiologismo, a homofobia,
a teocracia, a influência, a felonia
se ofertem sempre – a preço de ocasião.

1-7-2015




CRUZADA

I

Tomado de um espírito valente,
entre godo e cruzado, e decidido
a dar cabo do insólito partido
que tinha eleito mais de um presidente,

resolveu, como quem vê de repente
um brilho damasceno (produzido
por umas coisas que leu a corrido),
sair a campo — ardoroso pretendente —

e atravessar, com ânimo viril,
mil quilômetros (cheios) de Brasil,
de São Paulo a Brasília — bem cortados.

Palmilhou — diz a lenda — todo o trecho
em sola de sapato; e no desfecho
foi recebido pelos deputados.


II

Eram vinte somente — diz o vento —,
com muito mais valor que quantidade,
os que lá estavam para aquele evento,
que só a polícia achou ser de verdade.

Onde foram parar os convocados
da imprensa e dos jornais, que, por ofício,
deram mais atenção a esse estrupício
do que aos cem mil da greve, desprezados?

Se a resposta foi pífia (aproveitando
o termo do Barbosa) e se faltaram
holofote e barulho à brincadeira,

ao menos esta coisa desovaram:
uma selfie (crescida a cabeleira),
com o Marco e o Bolsa (Júnior) se apertando.


III

“Dia agitado” — disse alguém, na imprensa
(por bem pouquinha coisa, se acrescente) —
aquele em que, da expectativa imensa
(se a houve), se tropeçou eventualmente

na decepção, que confundiu a gente,
formada, assim como uma chuva intensa
que findou no Planalto brandamente,
por outonal garoinha, no ar suspensa.

Dizem, no entanto, que por carregar
essa aguinha minguada até Brasília
não bastou só sapato e muito andar:

por exemplo, na Força fez-se alguma
força, e se deram rodas a essa bruma,
um ônibus servindo de vasilha.



IV


O ápice da aventura — aqui se insiste —,

cujo lema era o Fim da Corrupção,

foi posar numa foto, o dedo em riste,

com o Cunha e os outros, em conversação.


Quem do destino escapa? Quem resiste?

Pois foi o caso; e agora vem a ação

da Procuradoria, cujo alpiste

lá foi jogado e aguarda a conclusão.


Mas nós, que de profetas temos nada,

só nos resta esperar que essa cruzada

mereça um dia melhor patrocínio


e que, em vez de gastar com mau defunto

a vela do bom senso, encontre assunto

em coisas de mais juízo e tirocínio.


12-6-2015/2-1-2016




O PITBULL DO GOVERNADOR


Ninguém pense que vai passar
para o outro lado da barreira,
onde estão a confabular
os deputados de carreira
e os que trocam fava e favor.
Quem se atreva verá o canino
do pitbull do governador.

Ninguém passa para o outro lado
onde todos serão intrusos
e onde o futuro está lacrado
como num quarto de desusos;
que da barreira é guardador,
com raivas e ímpetos incríveis,
o pitbull do governador.

Vêm clamar por democracia?
Vêm pedir que a justiça exista,
que haja sol sobre o escuro dia? –
Seja o padre, o médico, o artista,
seja o aluno ou o professor,
ninguém passa sem esbarrar
no pitbull do governador.

Ninguém chega àquele outro lado
onde a bomba não faz barulho
e onde o polícia está pintado
de um cor-de-rosa sem orgulho:
ninguém alcança esse interior
sem passar pela vigilância
do pitbull do governador.


1-5-2015


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PENICAÇO


Em plena noite morna apareceu
(quando a outra, que a direita não atrela,
didática e assertiva, esclareceu
que a culpa no final nem era dela),

de cuecas, através de uma janela,
como um confuso atleta que perdeu
a razão, e a bater numa panela
foi dizer a que veio (a imprensa deu).

Engano ou sonho – aquele pandemônio,
que o fez surgir assim, na noite breve,
para pagar esse esquisito 'mico'?

Não sei. Porém é fato que lá esteve,
instigado por íncubo ou demônio,
a confundir panela com penico.

10-3-2105




PROCISSÃO

 

Dia – amanhã – de pôr a camiseta
daquela imaculada instituição
de que Havelange foi patrono e irmão,
tendo o Teixeira à frente da retreta.

De pendurar no peito uma tarjeta
com uma prece para São Galvão
e outra para o anjo cuja inspiração
fez de Furnas a casa do capeta.

De rezar a São Medici e a São Judas
e a São Lacerda, que o bom Deus não tem,
com as bênçãos do Agripino (e outras ajudas).

E de brandir um exemplar da Veja
de que o Moro foi capa (ou quem mais seja) –
penitente e contrito ele também!


11-4-2015





NO BONDE


"Esse bonde não para."

(Jornalista embarcado)


"Hipócrita: indivíduo que, ao professar virtudes que não respeita, assegura as vantagens de parecer ser aquilo que despreza."

(Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo)


Fingindo embora calma e relutância

e uma espécie feroz de compromisso

(de quem não se descura do serviço),

lançou seu grito contra a militância.


"Lula, Dirceu, e o resto da patota,

e a secretária, e o diabo, e o escambau –

tudo parte (bradou) de um só mingau

que vai no mesmo bonde" – era a lorota.


Já com o fígado menos opilado

(até porque seu mau humor esconde

algo como um pecado original),


seguiu em frente; e agora, ali sentado,

contempla um latifúndio de moral:

de antemão embarcado nesse bonde.


14-3-2015





O BANHO


Se o eleitor não me quer, se me rejeita,

não me resta senão correr à imprensa

para expressar a minha mágoa imensa

em escritos que a bile não enfeita.


Neles, fazendo pose de quem pensa

e com razões somente o mundo ajeita,

a plebe vou nutrindo insatisfeita

de uma ração que a torna mais intensa.


E aguardo, ao fim da festa, o resultado

que não me tornará mais popular,

mas que há de me deixar mais aliviado –


como quem sai de um banho insuficiente,

com sua alminha suja e impenitente

do veneno que vem de destilar.


11-2-2015





A EXPLICAÇÃO

 

Voluntarismo é assunto de família

Ou de pele, conforme se interprete

Valor e preço. E a história se repete

Onde o valor não se herda com a mobília.

Lavra um incêndio, que afinal consome

Um paiol de surpresas, empilhado

Num fundo de quintal lá do passado,

Tocando a franja do meu sobrenome.

Agora vêm pedir-me, tardiamente,

Resposta e explicação para o que é um ovo

Incubado onde nunca o viu o povo? –

Sei apenas que, do árido ao grotesco,

Mérito é ter, conforme o sabe a gente,

O talento que vem do parentesco.

 

19-10-2014

 

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PREGÃO

 

“92% de aprovação.”

(Lorota mineira)

 

Aprovado até mesmo pelas moscas,

pelos pombos e pelos cachorrinhos,

vou, com palavras vagas e algo toscas,

apregoar meu valor pelos caminhos.

 

Quem me conhece não me compra, é certo;

mas não perco a esperança de vender-me

lá onde o esquecimento é um campo aberto

e o mérito uma coisa da epiderme.

 

A quem queira arriscar-se dou o preço,

levando em conta os custos do adereço

com os da pantomima em acrescento:

 

que acarreto no fim a quem me pague,

somado à encantação que me propague,

um ágio de noventa e dois por cento!

 

18-10-2014

 

 

 

A TORNEIRA

 

Madame, essa torneira vaza tanto,

com uma velocidade de gargalo,

que – juro – não será nenhum espanto

se for do tipo que, lá em São Paulo,

 

vazou do Cantareira para o vento

a água que em sua casa vai faltando –

coisa que me dá trato ao pensamento.

Mas enfim estou só conjeturando.

 

Mais importante – veja – é constatar

que, embora infrene, essa torneira tem

um modo complicado de vazar,

 

que, quando importa, jorra desbragada,

num ímpeto fluvial; mas, se convém,

emperra e trava, e às vezes vaza nada.

 

3-10-2014

 

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 O PRÍNCIPE E A IGNORÂNCIA

 

Em mais uma entrevista, incomparável,

o Príncipe me chama de ignorante.

Diz ser uma atitude de tratante

ir pedir voto ao pobre e ao miserável.

 

E mais: que por essência, inconsignável,

esse eleitor não sabe do bastante

e vota às cegas, como se, tateante,

palmilhasse na treva impenetrável.

 

Lendo a Privataria e a Operação,

entendo o que ele diz, e me aventuro

a sugeri-las a quem vai no escuro;

 

pois quem as lê, se o próprio juízo o aguça,

no Príncipe e na sua agremiação

não põe sufrágio, nem que a vaca tussa!

 

7-10-2014

 

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DE BLACK BLOCS E GREYHOUNDS

 

"A República não pertence a Vossa Excelência nem à sua grei. Saiba disso."

(Ouvido numa alta instância da justiça brasileira)

 

Supremo, amargo e irado, esse Joaquim,

Uma vez desafiado, não hesita:

Põe a polícia em cena, que exorbita

E obriga o outro a calar. (Simples assim.)

Rancor contra o advogado que, insistente,

Batendo à porta com punho incansável,

Leva de novo à vista do Honorável

A velha petição do pretendente? –

Cabe explicar: conhecimento e (penso)

Knowledge é a mesma coisa. Mas quem diz

Batman diz labareda, fogo intenso. –

Logo se entende que, se houver demanda

Ou se a grei se desgarra – por um triz –,

Cabe mostrar ali quem é que manda.

 

13-6-2014

 

 

 

SONETO ACRÓSTICO

 

Não é o que dizem os auditores do INC-PF. O laudo tem 43 páginas e em nenhuma delas consta o nome de Pizzolato, ou do então ministro Luiz Gushiken, responsável pela publicidade do governo de Luiz Inácio Lula da Silva quando estourou o escândalo do Mensalão.”

(Maria Inês Nassif)

 

Julgar e justiçar formam às vezes

Uma espécie de absconsa dobradinha,

Resolvida por alto na levinha

Intimidade da alma e seus reveses.

Manda a prudência e manda a honestidade

Ponderar a balança da justiça,

Refreando o impulso da vontade omissa –

Um e outro em nome, apenas, da verdade.

Debaixo, pois, da raiva vingadora

E pronta, que a si mesma se penhora,

Nasce ou se cria um germe de serpente,

Cujo veneno, ou doce ou sub-reptício,

Infecta ocultamente com o seu vício

A falsa fé de que ela se ressente.

 

14-5-2014

 

 

 

INSTANTÂNEOS DA MARCHA

 

I

 

Dona Coisa ficou muito irritada

quando entendeu que a marcha em que Deus ia

era contraditada nesse dia

pela outra, antifascista nominada.

 

Esbravejou com ar de endemoniada

(gesto que bem podia, mas havia

seminaristas lá, de alminha pia),

e por gente mais sã foi afastada.

 

Qual o motivo da demonstração?

É que, apesar de Deus e do rosário,

o protesto, bilioso e resmungão,

 

era contra o partido do governo.

(E todos sabem que, entre a terra e o inferno,

o diabo – e aqui se prova – é apartidário.)

 

 

II

 

Vaiaram os roqueiros na avenida,

e houve quem suspirasse, nesse auê,

pela volta do infame CCC

com uma saudade sonsa e agradecida.

 

E o que dizer da louca algaraviada

que estamparam nas faixas e cartazes

levados lá por uns gentis rapazes

que de explicá-la não sabiam nada?

 

Porém espantou mais foi o desejo

incivil de dar cabo do adversário,

por “linchamento” – um disse, assim sem pejo.

 

Diante de um objetivo tão sumário,

é correr para casa, entre cautelas,

e trancar logo as portas e as janelas.

 

 

III

 

Representada” pelo Malafaia,

a moça do cabelo colorido

foi, sem ideologia e sem partido,

dar seu recado ali, naquela raia.

 

Noutra parte, uma dona resumia

todo o desassossego que ela tinha,

dizendo que gastar com moradia,

se é coisa de esquerdista, é “pegadinha”...

 

Talvez por não gostarem de votar,

propugnavam, com uma angústia rara,

pelo intervencionismo militar.

 

É que, conforme a moça expressou bem,

pedir a ditadura e a exceção tem

menos perigo que exaltar Guevara...

 

 

IV

 

Estudar na USP é coisa perigosa

(prefira-se homeschooling) – disse a moça;

e o comunismo, a praga venenosa

que o juízo ponderado não endossa.

 

Da mulher, perscrutando a opinião sua,

bem facilmente se compreende que é

muitas vezes melhor morar na rua

do que ter presidente do PT.

 

Que nos Esteites não há golpe (ouvi),

porque lá existe uma democracia

bem mais desenvolvida que a daqui.

 

(E, por que a nossa cresça em peso e altura,

não há melhor alvitre neste dia

que ir às ruas pedir a ditadura.)

 

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25/28-3-2014

 

 

 

EM FOGO BRANDO

 

Sei apenas que a solidão é um lugar pequeno demais para seu ego.”

(Fernando Brito)

 

Ego tão vasto assim num lugar morno,

tendente a frio, cabe muito mal.

(Ficaria melhor num grande forno

ou num ensolarado litoral.)

 

Para expandir-se bem precisa de ar,

de água, de azul, do “fervo” e do reclame –

coisas que acabará por encontrar,

não aqui, mas nas praias de Miami.

 

Por enquanto, porém, vai definhando

num cozimento “pífio”, a fogo brando,

que não crepita e só produz fumaça.

 

Dessem-lhe uma fornalha e muito espaço,

e iam ver quanto ruído e estardalhaço,

quanto bolo ainda dava aquela massa!

 

29-3-2014

 

 

 

A PRESIDENTA

   

Firme ao timão, não ouve a gritaria

de quem, aborrecendo lá chegar,

quer empurrar a coisa, dia a dia,

em direção a algum fatal lugar.

 

Concentra-se no esforço, perseguindo

a tarefa infinita do futuro

e contra a maré brava resistindo

do mal-intencionado e do perjuro.

 

Vai desafiando as ondas, de uma em uma,

sobre mar de sargaços e mentiras

que, iroso, já tragou mil bergantins;

 

enquanto à sua volta se avoluma

um cardume raivoso de marlins,

de tubarões, de bagres, de traíras.

 

28-3-2014

 

 

 

GLOSA A MOTE

 

Foi feito para isso sim!

(Ouvido numa alta instância da justiça brasileira)

 

Respondeu-lhe o arcanjo assim:

“Foi feito para isso sim!”

 

Foi só para dar o exemplo

de coisas que não se aplicam

às vestais daquele templo,

que tal como foram ficam

desde o princípio do mundo,

e por isso em nós suscitam

só um suspiro profundo

quando os ânimos se excitam?

Respondeu-lhe o arcanjo assim:

“Foi feito para isso sim!”

 

Ou foi mesmo para dar

mais um repelão à roda

que estava quase a parar,

apesar de hoje ser moda

na ideia de certa gente

o difuso pensamento

de derrubar presidente,

que ali gira e é cata-vento?

Respondeu-lhe o arcanjo assim:

“Foi feito para isso sim!”

 

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10-3-2014

 

 

 

A LAVAÇÃO

 

D. Gilmar suspeitou do meu dinheiro,

achou que era lavagem, o maroto.

E então pensei comigo: "O capiroto

fez do cérebro dele um aranheiro!"

 

E nem dei bola. E fui depositar

meu detergente em conta de quem fosse,

sem ter quaisquer satisfações a dar

ao desconfiado e a seu veneno doce.

 

Mas eis que, descontente, o tagarela

voltou a campo e disse num jornal

que aquilo era uma afronta ao tribunal.

 

Que sujeira! É por esta mais aquela

que, em reforço da escova e do sabão,

dobrei a monta da contribuição.

 

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18-2-2014

 

 

 

CAUSA SECRETA

 

Já não há para mim Constituição

Ou lei que não promane do meu veto,

Agora que aprendi a dar decreto,

Que tenho o Tribunal na minha mão.

Um doce para quem souber mostrar,

Instado por desejos de justiça,

Meu truque mais sublime e, movediça,

Minha causa secreta, a prosperar.

O que me move mesmo, de verdade,

Não digo a toda gente, nem revelo

Ao indiscreto olhar da ingenuidade. –

Reino sobre o meu feudo, incontestado,

Com o Código a meus pés, ora fechado,

A me servir de estrado ou escabelo.

 

29-11-2013

 

 

 

LANCHE NO TRIBUNAL

 

Ouvido mouco é regra lá na casa –

mas às vezes, em caso de pressão,

quando retorna à pauta o “Mensalão”

(que de carvão começa a virar brasa)

 

do tucano, uma pausa é conveniente

para pensar ou mesmo para o lanche,

contendo assim a insípida avalanche

da enorme urgência que entorpece a mente.

 

Um sanduíche e uma Coca descem bem

e um cafezinho, para quem não tem

úlceras que o impeçam de avançar:

 

e depois, no retorno, a retomada,

sem reparar que se mudou de estrada

e que agora se vai a outro lugar.

 

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27-11-2013

 

 

 

MENOS EU!

 

Quem quer que leu o Dória sabe bem

que serve qualquer um, menos aqueles

que eu levei a Brasília no meu trem,

misturando o meu gene ao gene deles.

 

Pode ser qualquer pássaro – a andorinha,

a gaivota, a maitaca ou o albatroz,

contanto que, de pluma mais levinha,

num voo reto, chegue lá sem nós.

 

Para alívio de todos – ou, melhor,

conforme disse o antigo Imperador:

“Se é para o bem de todos...” – aqui fico.

 

E aqui paro, onde Judas me perdeu

e onde, falhado herói, me sacrifico:

seja, pois, qualquer outro – menos eu!

 

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25-11-2013

 

 

 

JURAMENTO

 

Minha intenção não é ser presidente,

E sim fazer justiça, embora o ofício

Um incômodo aspecto de comício

Assuma às vezes, colateralmente.

Mas de onde foi que deduziu a gente

O pensamento de que era um suplício

Receber lá, das mãos do próprio Aécio,

Tamanha distinção, de Inconfidente?

A insígnia chega a tempo, merecida,

Recomendando o circo de uma vida

(Tendente a medalhão da Academia).

Um princípio no entanto abraço e acato:

Fidelidade ao lema que me guia –

Onde quer que me saia mais barato.

 

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21-11-2013

 

 

 

FESTA NA REPÚBLICA

 

A República Nova não admite

Festas em que se comam outros frutos.

Está no regimento. E a lei permite

Somente aquele – em termos absolutos.

Toca o Joaquim – que a fez independente,

A ela emprestando incluso o próprio nome –

Doida valsa, que degringola a mente,

Aumentando a fadiga, o enfado e a fome.

Comer o doce, entanto, só no fim,

Ou depois que o tivermos adoçado

Com o meio amargo açúcar de Caim.

Até lá, que se dance à perna solta,

Dando um passinho, às vezes, para o lado –

À direita e de leve, a cada volta.

 

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20-11-2013

 

 

 

GLOSA A MOTE

 

Se o teu jurista é o Merval,

entras bem e acabas mal.

 

O advogado na penhora

cortou parte do teu rabo

e simpático anda agora

menos a Deus do que ao Diabo?

E vives já desconfiado

de que a lei não te contempla? –

Pois há nó mais bem atado;

pensa nisto, pois te exempla:

se o teu jurista é o Merval,

entras bem e acabas mal.

 

O juiz da tua comarca

de penas tais te carrega

que trepida a tua barca,

que o teu burro te arrenega?

E o promotor lá na corte

te despela e te exorciza? –

Que isto, amigo, te conforte,

pois teu coração precisa:

se o teu jurista é o Merval,

entras bem e acabas mal.

 

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19-11-2013

 

 

 

NA REPÚBLICA DO JOAQUIM

 

Prossegue o autor, descrevendo as grandezas da República Nova.

 

Na República do Joaquim

quem tem olho não chega a rei.

Há que saber tresler o Código

e empurrar a Constituição

e – lépido – ignorar a LEP

e outras chatices que há na lei.

 

Na República do Joaquim,

proclamada faz só três dias,

há que ter ouvidos de pedra

e fingir que não houve nada

quando o alarme soou lá fora

junto com outras gritarias.

 

Na República que o Joaquim

proclamou, com a corda toda,

no último 15 de Novembro

(com intenção de fazer melhor

ou quem sabe só remendar

a outra que já saiu de moda)

 

comunista não terá vez;

mas os togados e os banqueiros,

e os solitários da internet,

e os colunistas do Estadão,

e outras aves de voo baixo,

e os joaquins hão de ter poleiros.

 

Na República do Joaquim

de óculos é que se enxerga mal.

Portanto há que tirar os óculos,

ou se fingir de analfabeto,

e bufar diante dos embargos,

e até dormir no tribunal.

 

18-11-2013

 

 

 

ACRÓSTICO DA REPÚBLICA

 

Não fui eu que a inventei, mas no seu dia,

Ousando mais que o próprio Marechal,

Valentemente, me lancei a tal,

Arremessado além do que podia.

Minha intenção de luz não carecia:

Era fazer valer, regimental,

Nossa ambição de dar ao Tribunal

Toda a justiça que ele merecia.

E foi então que – de uma canetada –,

Violada a própria regra da prudência

E o que mais me embargasse na empreitada,

Levantei meu decrépito espadim,

Honrando lá com velha independência

A República Nova do Joaquim.

 

18-11-2013

 

 

 

NOVATOS E VELHACOS

 

"Sou velho, mas não sou velhaco!"

(Ulysses Guimarães)

 

Bom era que o novato nem votasse

ou que, votando (um tanto à revelia

de quem conselho vende à luz do dia),

o seu voto, ainda verde, não contasse

 

e ao estabelecido se somasse;

ou que, somando menos – pois cumpria

dele abater proporcional fatia –,

no prato da balança não pesasse.

 

Tacitamente, a coisa se acertava

(se fosse o caso), nesta situação,

corroborando a pena que se exige

 

e no jornal produz boa impressão

(se fosse o caso). E a gente cancelava

o regimento – se é que ele ainda vige.

 

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19-9-2013

 

 

 

SONETO (QUASE) DESPERTO

 

Sabemos finalmente onde ele estava –

o documento que no imaginário

do gigante dormido não constava:

perdido lá, no escuro de um armário.

 

Perdido não: com zelo extraordinário

subtraído ao malvado que o guardava

da prateleira com que nem sonhava

nosso ardor de protesto, funcionário.

 

Se não dava soneto, agora dá:

que, com a proteção de São Gilmar,

não foi em cana quem o deixou lá,

 

nesse sono que dura já sete anos

e do qual, sob os gritos de uns fulanos,

parece que afinal vai despertar.

 

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9-7-2013

 

 

 

SONETO PARNASIANO-BLABLARINO

 

Eles não guardam a memória de qualquer movimento anterior de massa, e por isso é que chegam às vias públicas assim como quem tritura farelos de estrelas nas mãos consteladas.

(Carlos Ayres Britto, Ministro do Supremo)

  É tão importante, mas tão importante, que ele não sabe o que significa!

(Paulo Henrique Amorim)

 

O Verde é o último reduto do conservador de armário. O Verde platinado.

(Comentado no Conversa Afiada)

 

A verde desmemória nos convém,

triturada, tal como a cintilância

de uma estrela nas mãos da militância,

que sai às ruas, com partido ou sem.

 

Não compreender o assunto é entender bem –

ensina-nos, aqui, Sua Excelância,

numa alada, estelar, última instância

(onde os farelos contarão também).

 

Seria o caso de um conservador

que anda ouvindo – direis – o que, pasmado,

não faz sentido, mas tem brilho e cor?

 

Ah, viu nos astros: viu, na conjunção

zodiacal, entre o pasmo e a explicação,

um blablarino Verde, platinado!

 

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15-7-2013

 

 

 

SONETO MAJESTÁTICO

 

Batman do pensamento intransitivo,

Resoluto e valente, que o Merval

Imprimiu, para efeito magistral,

Como um herói na capa do seu livro,

Knowing it all, supus, desse portento

(E, if not, não importa: fiquei sendo),

Levo ao extremo o meu afã tremendo,

Levado eu mesmo por tamanho vento.

Se me perguntam onde, em que reduto,

Terminada a missão que ora executo,

Repousará meu sólido traseiro,

Em pífia caverninha ou em cediça

Ermida é que não é, mas no altaneiro

Trono (de ouro e granito) da Justiça!

 

24-7-2013

 

 

 

O INCÔMODO

 

A realidade, sempre a realidade

Repelindo, embargando, atrapalhando

Esses planos redondos que fazemos,

A cada passo um novo arquitetando.

Lá onde aquele mundo mais bonito,

Incrivelmente rosa e platinado,

Dourado, até, no fim de um belo arco-íris,

Ao som de um jingle leve, saltitado,

Dançava alegremente – uma criança –,

Entra ela, atropelada, barulhenta,

Não dando a mínima para o sublime

Aviso que na porta se apresenta:

Oco e cheio de vento, como um pote,

Como um vaso velhusco, agora friável,

Ou um fruto só casca, onde chocalha

O caroço pedrento e imastigável. –

Pedra por dentro, e pedra no telhado:

E esse incômodo atroz de coisa torta,

Rumor que faz na tarde, indesejado,

A realidade, quando bate à porta.

 

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12-7-2013

 

 

 

SONETO EM ACRÓSTICO

 

De prender o Dirceu eu gosto mais

Ou às vezes o impávido Genoino,

Recorrendo às argúcias do meu tino,

Mais exatas que as pistas capitais.

Ir, decidido, às favas da evidência

Não comove o meu senso de justiça,

Do qual se nutre, sem qualquer preguiça,

O meu desejo insone de excelência.

Na hora de despachar uma sentença,

Ouvir o passarinho que em mim canta

Faz do meu caso uma cruzada imensa.

Abro o livro na página, e decido.

Toca-me dar o exemplo. E só me encanta

O domínio do fato em meu ouvido.

 

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e aqui

 

9-7-2013

 

 

 

CANÇÃO COM O PARAFUSO A MENOS

 

Aos filósofos da Internet que têm uma opção de estado de direito para sociedades de massa além da democracia

 

Sob as chuvas que não caíram

e entre os ventos desencontrados,

ao som de músicas absurdas,

dançam os desparafusados.

 

O que soa nos seus ouvidos

ecoa nas coreografias:

alguns dançam feitiços, mágicas,

outros dançam ideologias.

 

Mas eis que o parafuso ausente

pelo visto não lhes faz falta:

vede como o seu pé se move,

vede como desliza e salta.

 

O parafuso que lhes falta

deixa um oco em sua cabeça

por onde o vento a invade e estufa

e faz com que o miolo amoleça.

 

(O bom senso não está à venda

na bodega do seu Joaquim,

nem no bazar da dona Eulália:

por isso é que se dança assim.)

 

Vede como dançam bonito

(mesmo faltando o parafuso,

mesmo sendo o vento contrário,

mesmo que o ritmo seja abstruso),

 

em meio aos ruídos do momento,

os que-fazeres da magia,

a mecânica da orelhada

e as fórmulas da ideologia.

 

Sob as chuvas que não caíram

e entre os ventos desencontrados,

ao som de músicas absurdas,

dançam os desparafusados.

 

6-7-2013

 

 

 

AS VIRGENS ILHAS

 

Para as mais virgens ilhas nós iremos

quando o Fisco chegar, batendo à porta;

quando, impulsivo, vier numa hora morta

pedir um documento, que perdemos,

 

de cujo paradeiro nem sabemos

(ou esquecemos, pois já não importa

ou só importa ao vento – letra morta) –

tudo em nome do Imposto, que tememos.

 

É para as Ilhas Virgens, abençoadas –

mais virgens que as mais virgens das amadas –

que fugiremos, sem mostrar o DARF

 

e expondo parte alguma, ou quase nada,

da nossa anatomia delicada

ao tridente do Fisco, que nos garfe!

 

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4-7-2013

 

 

 

SEIS SONETOS DE OCASIÃO

 

I

 

Volta o golpismo à moda. E eu, do meu canto,

sobre o teclado, como um mandarim

caseiro, sem sair do meu jardim,

“digito”, “clico”, “envio” – e não me espanto.

 

Cumpre assinar a lista – doce encanto –

ou postar no Facebook (esse quindim

do qual quero um pedaço para mim)?

Pois lá vou eu, a me indignar, portanto.

 

Vejo. Escuto o Jabor, que se desdiz.

Ouço o Alckmin dizer, lá de Paris,

que bala de borracha não dá certo.

 

Não sei. Vou acender uma velinha

para a alma do Lacerda, que Deus tenha,

e outra para a do Civita, o Roberto.

 

 

II

 

Com o nariz de palhaço em posição,

formando em frente ao rosto uma bolota,

saio à rua e não penso na chacota.

Que quero? Que procuro? Sei, e não.

 

Saio do meu sossego: a situação

é que me faz assim perder a rota.

E se o mundo acabar só em lorota? –

Bem, estarei cumprindo uma função.

 

É Vênus Platinada. É Can-cansei.

É Marcha da Família, a que o bom Deus

somente acorre se falece a lei.

 

Nesta promiscuidade de objetivos,

eu mesmo já não sei quais são os meus,

e mal distingo os modos dos motivos.

 

 

III

 

Na passeata do vândalo, o ladrão

também tem vez, e vez tem o espertinho

que lá entrou de gaiato – um passarinho –

para lograr, à sombra, o seu quinhão.

 

Tem vez o demagogo – tão levinho –

que, ali bradando contra a corrupção,

vai repetindo um lépido bordão

cuja origem apenas adivinho.

 

Tem vez o mercador da novidade

que, sem medo às carrancas da verdade,

grita aos ventos: Aqui se faz história!

 

E tem vez o valente, mascarado,

de bigodinho ralo, bem cortado –

sem nome, sem partido e sem memória.

 

 

IV

 

Sem causar furacões nem maremotos,

mas, com a vênia de uma intenção bela,

fazendo do protesto passarela

ou só pretexto para belas fotos,

 

entre slogans sonantes e remotos,

a que sem convicção a alma se atrela

(mas que a fazem sonhar e acendem nela

um corisco de urgências e alvorotos),

 

lá vamos nós, formando na avenida,

ao lado dos audazes e atrevidos,

uma corrente longa, indefinida –

 

a depredar os prédios da justiça

e a queimar as bandeiras dos partidos,

cuja ideia nos obsta e nos atiça.

 

 

V

 

“... por isso ele entendeu que aquela era a hora de lutar por TUDO de uma vez só: saúde, educação, salários justos, etc.”

(Cauê Madeira)

 

Foi então que o gigante despertou,

porém sabendo mal que ainda dormia:

e foi, convalescente, à luz do dia,

bradar um vago lema que escutou

 

e defender a Causa a que o chamou

uma sombra que ao longe aparecia,

fazendo a longa lista (ele entendia)

das guerras que, dormindo, não lutou.

 

Cumpria, pois, pugnar por tudo e nada

ao mesmo tempo, ao modo de quem tenta

pôr em dia uma agenda abarrotada.

 

E saiu à rua, incerto, estremunhado,

com a cara pintada ou mascarado –

cheio só das razões que o sono inventa.

 

 

VI

 

Quem deixou o gigante adormecido,

cantando-lhe a longuíssima canção

do auriverde Combate à Corrupção,

de ir Morder a Bandeira do partido,

 

de eleger presidente o Destemido

Vingador do impalpável Mensalão;

e depois o acordou, na confusão

dos cartazes e lemas, maldormido?

 

Quem derrubou a PEC num só instante

com a ajuda do brado retumbante

que lá ecoou sem acordes, rimas, pausas? –

 

Por certo que não foi o mascarado,

iroso, nem o ardente desmiolado,

grande entusiasta de todas as causas.

 

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18/27-6-2013

 

 

 

A POLÊMICA TOLENTINO-CAMPOS REVISITADA (COM UM ADENDO)

 

"Eu não sou tradutor, traduzi algumas coisas."

(Ferreira Gullar)

 

Tolentino esbravejou forte

contra esse aspecto de esquimó

que misturava – estranho esporte –

risos e caras de dar dó.

 

Falar com o travesseiro não

convém, a não ser numa urgência,

como ante a ameaça de um tufão

ou coisa de igual pertinência.

 

Mas fique lá o relógio, quieto

e empoleirado sobre a porta,

e passemos ao que é concreto,

ao que de fato nos importa:

 

Arnaut Daniel, Corbière, Marino,

Hopkins, Gregório, Kilkerry

João Donne, John Airas, Aretino,

e até mesmo Pignatari

 

(forçada a rima, já bem gótica),

eu citaria, com prazer;

mas com "pessoa intersemiótica"

não saberia o que fazer;

 

e rimava o meu "arrebol",

que o Tolentino detestou,

com "girassol" ou "rouxinol",

(pois ele é ele, e eu eu sou);

 

já "traquitânia colonial",

"emocional verborragia"

ou até "culinária verbal"

são termos que eu evitaria.

 

(E, embora o Campos desaprove,

darei mais uma estrofe ao poema,

pois o meu eu quero com nove,

mesmo que nada acresça ao tema:

 

para evitar – tenho pensado –

futuras precipitações,

proponho um abaixo-assinado

contra todas as traduções.)

 

ADENDO

 

Pena no poema não caber

a Spaghettilândia, esse espanto,

pois ao dez chego sem querer,

e haja paciência para tanto...

 

(Referências aqui e aqui)

 

Buenos Aires, 18-9-2012

 

 

 

O CURRÍCULO DO POETA

 

No currículo do poeta

(ralo demais para o concurso),

não se diz que ele foi à Lua,

não se diz que domou um urso,

 

não se diz que agarrou de jeito

um crocodilo, um tigre, um touro,

nem que foi ao fundo do mar,

nem que encontrou algum tesouro,

 

nem que transpôs um Himalaia,

nem que, valente e confiado,

engoliu a areia do Saara

ou que cruzou a Mancha a nado.

 

No currículo do poeta

se diz (conforme fé vos dou)

que ele ganhou prêmios à beça

e publicou e publicou;

 

e que afinal, de livro em livro,

foi que chegou àquela altura

(que para todos os efeitos

vai mais alto que uma cintura)

 

de si mesmo e de ter subido

(como quem sobe uma montanha),

com um currículo assim cheio,

para mor brilho da façanha,

 

a uma espécie bem rarefeita

de topo ou de cimeira (ou quase)

de si mesmo, que é mais difícil

(pois nada lhe serviu de base)

 

quando pensamos que subiu

sem auxílio de escada ou asa,

mas agarrando-se somente

a um rochedo que o empurra e atrasa

 

(e soma negativamente

o que já é dívida bastante,

de que o currículo dá prova;

mas isto é o menos importante),

 

dando em vermelho, no final

da conta, um saldo negativo –

nada capaz de impressionar

quem mede a soma, inconclusivo

 

(sabendo entanto toda a gente

que uma lista assim tão comprida

como um recibo, ao menos, vale

que vale o ralo de uma vida).

 

Buenos Aires, 22-5-2012

 

 

 

ABDÔMEN TIPO EXPORTAÇÃO

 

(de uma revista de moda brasileira)

 

Não só nosso bumbum tem feito estremecer

os gringos mas também – conforme uma notícia

que vem da Europa milenária e pontifícia –

o ventre bem torneado e lindo de se ver

 

Vede: até mesmo o Times veio a reconhecer

(à inveja misturando um tico de delícia)

que a lipoaspiração levada com perícia

e o bisturi podem fazer retroceder

 

a inútil flacidez que no abdômen se enquista

(“a técnica se indica” – observa o especialista –

“para jovens que a têm logo abaixo do umbigo”)

 

Explica-se portanto a inglesa ebulição:

tal arte há de abolir do ventre o corte antigo

e moldar a cintura em forma de pilão.

 

3-2-2011

 

 

 

O PARTIDO

 

A Paulo Henrique Amorim

 

Pode ser que por trás desse partido –

A que chamas, sem menos, de golpista –,

Regular, qual maestro rigorista

Toca um sutil concerto bem urdido,

Insistindo no ritmo desejado

De que tira um prazer particular,

O aspecto partidário, insuspeitado,

De um partido real possa faltar

(Ao qual, porém, talvez só não faleça

Intenção e atitude partidária);

Mas, para que a verdade se esclareça,

Pondo-se em posição mais ordinária,

Resta admitir que à coisa, assim disposta

E funcionando assim, dessa maneira,

Não faltam, pelo menos, por aposta,

Senso de urgência e a ginga costumeira:

Ao partido da imprensa, indeclarado

(Gato que a cada noite é menos pardo),

O que lhe sobra é o jeito, indisfarçado,

Leonino do rugir (ou de leopardo):

Presas, garras, a astúcia e, certamente,

Inclusas no pacote, entre outras pistas –

Se a pele aqui se torna transparente –,

Tangida pelo faro das conquistas,

A mesma gana e a audácia dos golpistas!

 

3-9-2010

 

  

 

COMENTÁRIO A UMA NOTÍCIA

 

A pedido da Nestlé, a Prefeitura de São Paulo decidiu reduzir a qualidade nutricional da sopa que pretende distribuir em um programa que irá reunir pais e alunos aos sábados nas escolas e creches municipais. A gestão Gilberto Kassab (DEM) diminuiu a quantidade de carne, frango e verdura exigida na sopa depois de um apelo feito pela multinacional durante uma consulta pública para a compra do produto. A previsão das nutricionistas do município era que uma das sopas tivesse 7 kg de carne, 2 kg de cenoura e 3 kg de "outras" hortaliças (por 100 kg de sopa desidratada a ser distribuída). Com a mudança feita diante da manifestação da Nestlé, a mesma sopa deverá ter só 0,5 kg de carne, 0,8 kg de cenoura e 1 kg de "outras" hortaliças. (Folha de São Paulo, 12-9-2007)

 

Ralear a sopa não implica

diminuir a quantidade

dos ingredientes que a compõem,

que lhe dão corpo e densidade.

 

Diminuir pode ser também

acrescentar ao alimento,

isto é, deitar água à medida,

tornando ralo o seu cimento.

 

Isso apaga o incêndio da sopa

e acende o fogo da ambição,

que às vezes grassa tanto mais

quanto mais água há na ignição.

 

15-9-2007

 

 

 

DAR E NÃO DAR

 

Cozinheiras de três escolas municipais da zona leste de São Paulo afirmaram que ganham um prêmio para racionar comida nas unidades, revela reportagem publicada nesta terça-feira pela Folha... (Folha Online, 11-9-2007, http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u327418.shtml)

 

Dar e não dar são dois extremos

de um mesmo dar que não se engana

na conta: o mesmo saldo exato,

mesma atitude muquirana.

 

Dar o que é pouco e racionado

(como quem toma ao dar, ou furta) –

é dar entre paredes, cercas,

dar com critério e rédea curta;

 

o que às vezes é como não

dar ou nem dar, que distribui

uma ponta, um farelo, um grão,

que a quem recebe diminui.

 

Quem de dar pouco tira um prêmio,

isto é, faz disso o seu cenário

(ou o seu teatro) e se compensa:

e dá, sempre, mas ao contrário –

 

vai enchendo a parte vazia

do que era necessário encher,

enchendo-a de um vazio cheio

que tanto mais pode conter;

 

enquanto, da outra parte, enchendo

um vazio que se esvazia

quanto mais se enche de si mesmo,

enche só como quem desvia;

 

porém sem nunca errar na conta,

porque sabe de onde tirar,

tirando de reter o prêmio,

fazendo de tirar um dar.

 

Dar e não dar são como espelhos,

ou como as pontas de um cordão:

de um lado a consciência limpa,

o correto do gesto e da ação,

 

mas do outro: o dar que não franqueia

ou que, dando como quem pede,

faz de dar um tirar aos poucos –

dar que mais toma do que cede.

 

11-9-2007

 

 

 

 A UM BLOGUEIRO DA INTERNET

 

I

 

Se não compreendes um assunto, fala dele.

Considera que o teu leitor o sabe menos.

Põe nisso convicção e duzentos venenos,

como um sapo que os traz ocultos sob a pele.

 

Publica só as cem cartas que te bajulam,

que afirmam concordar com tudo o que disseste.

E ignora as outras mil cuja opinião conteste

teu frouxo discorrer, onde os erros pululam.

 

Qualquer que seja a conveniência do argumento,

escolhe sempre o mais adequado ao momento.

Faze disso um mister ou uma profissão.

 

E, quando a obscura voz da verdade te sonde,

não penses outra vez, mas de pronto responde

que exerces tua liberdade de expressão.

 

 

II

 

Qualquer que seja o caso – ou claro, ou duvidoso –,

mostra que tens sobre ele uma opinião formada,

que deve anteceder a própria coisa dada

(como um fruto de cera em prato luxuoso).

 

Sê firme em teu julgar e sempre imperioso,

dando a entender que tua fé não teme nada,

que foi o próprio céu que te mostrou a estrada,

que és pai de uma coruja e de Minerva esposo.

 

Não deixes que um qualquer, para bancar o tal

(nem o próprio Platão, nem seu melhor pupilo),

seja teu professor, mesmo que liberal.

 

Mas dize sempre que és livre para entender,

que ninguém pode te obrigar a compreender –

pois a verdade é só uma questão de estilo.

 

 

 

 

BAIRRO NOBRE

 

Foi-se ao trabalho. O dia todo cheio,

sem um minuto para distração –

que empresa não é jogo, nem passeio.

(E ainda pensam que é fácil ser patrão...)

 

Ela também tem uma ocupação –

embora não precise, e ele ache feio.

Dar aulas numa escola. Por que não,

se é preciso ir à luta, sem receio?

 

Lá dentro a velha pensa: “Que maçada!

Depois de tão comprida caminhada,

foi se casar com esse vira-lata!”

 

Passa um carro lá fora. E o menininho

aparece na porta: cópia exata

do burguesão, que é pai do burguesinho.

 

 

 

CONVITE PARA O ENFORCAMENTO

 

Vem-me por e-mail o convite

(enviado não sei por quem)

para assistir ao videoteipe

do enforcamento de Houssein.

 

Recebo-o com desatenção

e deito-o fora, mas no instante

em que o suprimo um pensamento

se equilibra em mim, hesitante.

 

Que cor é que se pôs aqui,

que não é só uma cor qualquer,

mas que de viva aguça em nós

esta ansiedade de saber,

 

que é mais que a ansiedade vulgar

que toda morte põe em curso,

a ponto de gerar o equívoco

de uma incerteza sem recurso?

 

Talvez se trate só da morte,

mas neste caso a morte é mais

que o espetáculo cotidiano

das mortes vulgares, normais;

 

talvez se trate de saber

que a morte aqui se disfarçou

em morte-objeto, a morte-coisa

cujo preço se calculou

 

segundo o apelo não do show

ou do alarido que se faz,

mas de um valor-morte, visível,

que o morto finge por detrás –

 

valor que, entanto, não esconde

o fato de na morte vista

(mesmo a mais cara e mais notória),

como um defeito que se enquista

 

sob a superfície domada

da cor e do disfarce, haver

um traço da outra morte: aquela

que é sempre vulgar e qualquer.

 

23-1-2007

 

 

 

DE MANCHETES E ERRATAS

 

"Essa história de manchetes enormes e uma errata desse tamanhinho, que ninguém lê, me parece um ato de absoluta arrogância." (Geraldo Grossi, Ministro do TSE)

 

É de supor que aquela parte

da verdade que lá não coube

e que ocupou pequeno espaço

na outra verdade que se soube,

 

quando editada ou corrigida

(se é que se pode corrigir

o que se chama de verdade,

sem desfigurar ou mentir –

 

sem inventar uma verdade

que à anterior se superponha,

como quem fala enquanto dorme

e trata por real o que sonha),

 

venha ocupar maior espaço

do que ocupou na outra ocasião,

justificando que se imprima

uma nota de correção.

 

Mas pode ser que às vezes faltem

à verdade que se corrige

o estofo, a consistência e o gosto

que de uma verdade se exige:

 

pode ser que a uma tal verdade

falte o peso que justifique

o esforço mesmo de escrever

uma errata que a retifique.

 

Então, nem tanto pelo escrúpulo

de dar a verdade à verdade,

mas de medir com parcimônia

o jeito, a forma, a densidade

 

que há de haver no medir palavras

com que se diz o que não deve

no dito adquirir novo peso

(maior que o primeiro que teve),

 

se faz que a errata não alcance

comprimento maior que aquele

que se deve dar ao não-dito,

cabendo inteira dentro dele:

 

se faz que tenha bom tamanho,

conforme o fiel que se utiliza,

sem desperdício da (já escassa)

verdade que se economiza.

 

out./2006

 

 

 

JINGLES DE CAMPANHA

 

Os jingles de campanha vão

dizendo com estrondo, com

uma espécie de bom humor

que é mais da intenção que do som –

 

que é como a isca com que se atrai

o eleitor-peixe, que se quer

pescar não com o anzol da espera,

mas com a tarrafa do que vier –,

 

que o candidato da comarca,

o benfeitor da freguesia

(parente do contraparente,

primo do sogro de uma tia),

 

é melhor do que o que está longe,

porque se enxerga menos mal,

tal como a obra de algum oleiro

que se dispõe sobre um jornal.

 

*

 

No “santinho” ele sempre exibe

um sorriso de quem se ri

da improvável e nada santa

coincidência de estar ali

 

(como quem foi ali lançado

por algum tiro de canhão

e, tendo suportado o impacto,

faz de tal coisa o seu refrão).

 

*

 

Talvez se pense que esse peixe

(o eleitor) – tão pouco assanhado

pela torrente-senador

ou pela maré-deputado

 

(mas que só se pesca aos cardumes) –,

por míope e surdo, necessite

de muito ruído que o desperte

e muito bom humor que o excite:

 

que seja peixe de água turva

ou que, lento, nade melhor

quando o atraem as rimas fáceis

e a grande cara num outdoor.

 

(Cara que, não nos iludamos,

nada tem de recife ou penha,

mas é móvel como as areias

ou antes, na pesca que a empenha,

 

como uma efígie do dinheiro:

familiar só para quem tem;

que, a flutuar na água em que pesca,

vai tão depressa quanto vem.)

 

*

 

Os jingles de campanha vendem

como se próximo o distante,

o que tem asas e se escapa,

batendo-as, leve, num instante.

 

Para atrair o peixe-voto,

dão-lhe por isca uma ave esquiva,

que, inerte sobre a superfície,

não se adivinha que está viva.

 

Quando esse peixe, cego e surdo,

mal consciente do que abocanha

e de que a isca é mais abundante

na estação de pesca, a campanha,

 

morde nada, ou só morde rede,

que é o que lá está para morder –

ave defunta e de papel,

mas bem capaz de se mover.

 

set./2006


 

 

 

À MARGEM DA ATUAL SITUAÇÃO POLÍTICA BRASILEIRA

 

Os justos mordem os injustos

de um modo límpido, oficial,

utilizando-se dos dentes

que lhes concede o tribunal.

 

Certos de que só desse modo

é que se extirpará o caroço

de mal que empesta a carne, mordem

mais fundo – até o limite do osso.

 

(Outrora se fazia assim

nos tribunais da salvação,

talvez com um pouco mais de arrojo

e desvergonha na incisão.)

 

Se acaso mordem outro justo

com dentes que a justiça deu

(e após dizem que foi o dente

e não a boca que mordeu),

 

cospem por cima uma saliva

de preceptivas e morais

com que pensam cauterizar

as chagas novas, naturais.

 

Por não morder-se mutuamente

ou só morder o que convém,

deixando intacto tudo mais

que a justiça distingue bem,

 

não procedem conforme a grega

razão costuma prescrever:

isto é, primeiro dando à luz

o que antes não se pôde ver;

 

mas vão espalhando ao redor

uma poeira de intenções,

de bons propósitos, de sãos

desígnios, justificações,

 

que só se expressa em oratória,

e em gestos amplos, tribunícios,

que a outros olhos talvez pareçam

mais adequados aos comícios.

 

Vão lançando uma rede larga

e de malha fina em que o peixe

da opinião pública se enreda

(conforme o engodo que se deixe):

 

pois pouco importa a claridade

que a vista possa pretender:

importa o imperativo do ato,

a missão nobre de morder.

 

(agosto/2005)

 

 

 

DESCONSTRUINDO O DEPUTADO

 

A situação tomou a peito

desconstruir o deputado

e o faz virando pelo avesso

o que não tem avesso ou lado:

 

apanha um fio e logo faz

com ele vir o pano todo,

e então com o fio que puxou

amarra-o, prende-o de algum modo.

 

Mas esse peixe, que não cabe

na própria rede que o captura,

viscoso, logo se escapole

e salta a outra maior altura.

 

(Quem é que agarra tal salmão

no fluxo louco da corrente

e diz que nada na verdade,

ou diz que trama, e diz que mente?)

 

A oposição, porém, segura

de que tem contas a acertar

não com o difícil deputado,

mas com quem o esteja a enredar,

 

trata de reconstruí-lo, armando

de nova linha o mesmo tear:

e o faz levando mais para o alto

o peixe que não quer pescar.

 

(Ou põe de volta cada carta

que a situação embaralhou

e vai – Penélope – ao encontro

de um Ulisses que não voltou.)

 

E arrepanha, e alinhava, e cirze

essa esperança de tecido

com que há de reparar os furos

do deputado descosido.

 

(E aplica nisso tal fervor

que em cada ponto que se esgarça

mal se descobre a cosedura

do sério ou o remendo da farsa.)

 

E o deputado, por seu turno,

ave ou truta que se desvia

de cada língua que o bajula,

de cada farpa que o desfia,

 

lá paira, enigma ou charadista –

inacessível como um céu

à situação, que nunca o viu,

à oposição, que já o perdeu.

 

30-6/1-7-2005

 

 

(Poemas e crônicas de Renato Suttana)

 

Leia também, de Renato Suttana, o livro de crônicas Adendos e espinhos (clique para informações)

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